Devo calar, responder no mesmo tom ou relevar as coisas pequenas? Permita-se alguns segundos de reflexão antes de reagir


Fim das festas, enfim. Imagino que seus encontros com a família, colegas e comidas fartas tenham feito emergir o tema do autocontrole. Exemplo: ouvir coisas difíceis e não responder imediatamente pelo bem da harmonia do lar ou do emprego. Ver muita comida e bebida e ingerir só o suficiente. Driblar o cansaço do final do ano e conversar com a tia idosa que reclama da artrite. Continuar “fazendo social” além do momento de esgotar a bateria familiar. Não gritar. Não beber em excesso. Sorrir. Atender. Avançar com a vida sem deixar vítimas pelo caminho e sempre pensando que o cadáver simbólico pode ser você. Queimar-se no altar da paz em sacrifício, como cordeiro imolado para que ninguém fique ofendido, magoado, ressentido. Basicamente, isso dominou o final do ano de muitos.

Autocontrole é louvado pela Bíblia. No Livro dos Provérbios, Salomão nos indica que uma pessoa sem controle é como uma cidade de muros derrubados: vulnerável para os inimigos (Prov 25,28). Antes da pólvora, os muros eram a única segurança contra invasores. Perdê-los (como a bíblica Jericó) era ser escravizado e saqueado. O texto indica que alguém controlado é alguém que se defende. Baixar a guarda, gritar, bater, desesperar-se seria pura capitulação.

No Novo Testamento, são exaltados os pacificadores, os mansos e humildes de coração, virtudes identificadas no Sermão da Montanha de Mateus. Se lhe baterem? Vire a outra face! Se lhe obrigarem a caminhar um trecho, ande o dobro. Alguém lhe tomou algo? Ofereça mais! Perdoe agressores como Jesus pendurado ao madeiro. Afinal, eles “não sabem o que fazem”.

Para Sêneca, deixar que o primeiro pensamento raivoso lhe tome é permitir aos inimigos ultrapassar os muros da cidade Foto: Eduardo J. Cabaleiro - Adobe Stock

Os estoicos Cícero e Sêneca dizem o mesmo. Surge até a metáfora da cidade cercada, similar à Bíblia. Deixar que o primeiro pensamento raivoso lhe tome é permitir a vanguarda inimiga dentro da cidade. Atrás dela, ruge um exército incontrolável. A serenidade indiferente às oscilações do mundo, a paz interna, o mundo protegido da minha harmonia inabalável são metas estoicas. Marco Aurélio, um dos últimos estoicos clássicos, diz o mesmo logo no começo das suas Meditações: ao encontrar alguém abalado e instável, você é desafiado a responder se a paz lhe pertence ou não. Se ela for do outro, ele a toma; se sua, permanece. Para os tipos coléricos, exiba sua paz inabalável. Controlar-se é ser livre.

Sei de tudo isso. Bons religiosos e excelentes filósofos sorriem quando eu me controlo. A contenção dos sentimentos negativos e vingativos funciona como uma excelente suspensão: o carro do meu espírito percorre terrenos pedregosos sem ficar oscilando muito.

Sim, você sabe de tudo isso, minha querida leitora e meu estimado leitor. O coro em favor do autocontrole é elevadíssimo: de Salomão a Jesus, de Epicteto a sua mãe. Sua paz lhe pertence. Você se arrepende se sua boca ou seu corpo acompanharem a explosão negativa que a situação causou em você. Você tem emprego e casamento porque aprendeu a se calar. 


A arte de engolir sapos é pura estratégia.

Vivemos outro momento cultural. Bons psicólogos recomendam que você se expresse sobre aquilo que lhe agride. Orientadores de carreira estimulam a ser sincero com o que sente. O silêncio virou fraqueza. Desde Nietzsche, a ética da compaixão e solidariedade foi acusada de ser típica de escravizados: quem não tem como se defender de um ataque oferece a outra face. Muita gente se orgulha de ter redescoberto a lei do Talião e de se vingar a partir do recorte oftalmo-odontológico: olho por olho, dente por dente. Você argumenta: “Eu apenas respondi à provocação”, ou “Ele começou”, “Ela que deu a indireta primeiro” e, enfim, “Eles me agrediram, eu apenas dei o troco”. Choram Salomão e Jesus, lamenta o imperador Marco Aurélio: viramos pessoas que consideram o silêncio como uma capitulação.

Calar sempre? Responder no mesmo tom? Não tenho uma resposta clara, pois já me arrependi de calar e de gritar. Eu darei uma solução subjetiva: relevar a maioria das coisas pequenas. Por um lado, parar de andar pelo mundo sem epiderme: exposto a tudo com muita sensibilidade. Por outro lado, diante de uma clara injustiça, um deslize ético evidente ou uma agressão muito forte, estabelecer de forma evidente um limite e, na medida do possível, com firme calma, dizer que não tolera aquele tom ou aquele ato. Boa postura costuma ser muito forte como argumento. Como saber a diferença? Complexo, mas possível. Permita-se alguns segundos de reflexão antes de reagir. Treine, especialmente antes de um evento desafiador. Saiba o que esperar e prepare-se para ignorar pedregulhos e resistir a grandes petardos. Acho que isso pode ajudar a tornar 2026 mais sábio, sem epiderme ao vento e sem couro de jacaré. Lembrando o peso da metáfora: jacarés têm o ventre macio e o mantêm sob a água, escondido; possuem a couraça superior quase impenetrável e a exibem ao mundo. Segundo crença popular, “em rio com piranhas, jacaré nada de costas”. Tenho a esperança de aprender a viver em nado de peito, costas e borboleta, dependendo da fauna da água. Bom 2026 para mamíferos fofos e répteis astutos.


Por Leando Karnal / Colunista O Globo



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