Crianças de hoje: mais desafiadoras ou mais expressivas?


A psicanalista Mônica Pessanha, colunista da CRESCER, explica o que está por trás do comportamento infantil

É cada vez mais comum ouvir de adultos que “as crianças de hoje não sabem se comportar”. A frase aparece em conversas de família, na escola e até nos consultórios. Mas, quando olhamos com mais cuidado, a pergunta que se impõe não é se as crianças mudaram e, sim, se estamos compreendendo, de fato, o que elas estão tentando nos comunicar.

Na perspectiva da psicanálise, o comportamento infantil nunca é apenas um “problema a ser corrigido”, mas uma forma de expressão. Como já apontava Donald Winnicott, é na relação com o ambiente, especialmente com os cuidadores, que a criança se organiza emocionalmente. Isso significa que, muitas vezes, aquilo que chamamos de “falta de educação” pode ser, na verdade, uma dificuldade de autorregulação, ainda em construção.

Crianças de hoje: mais desafiadoras ou mais expressivas? — Foto: magnific/gerada com IA

Durante décadas, a obediência foi tomada como um sinal de boa educação. Crianças mais quietas, que não questionavam, eram vistas como mais “bem comportadas”. No entanto, como nos ajuda a pensar Sigmund Freud, o que não é elaborado não desaparece, retorna de outras formas. Muitas dessas crianças, silenciosas no passado, cresceram com dificuldades de expressar sentimentos, estabelecer limites ou reconhecer suas próprias necessidades.

Hoje, buscamos uma educação mais pautada no diálogo, na escuta e na conexão. Esse movimento é um avanço importante. Mas ele também trouxe um novo desafio: como sustentar limites sem recorrer ao medo? Como ser firme sem ser rígido?

No consultório, essa questão aparece com frequência. Atendi recentemente uma mãe que dizia: “Eu explico tudo, converso muito, mas meu filho simplesmente não me escuta”. Ao observar a dinâmica, ficou claro que havia escuta, mas faltava sustentação. A criança falava, a mãe acolhia, mas, diante da frustração do filho, ela recuava.

O resultado não era uma criança mais respeitosa, mas mais desorganizada. Isso porque, como lembra Melanie Klein, a criança precisa de um ambiente suficientemente firme para conseguir integrar suas próprias emoções.

Ensinar pequenas gentilezas, como cumprimentar, agradecer ou pedir licença, pode parecer algo simples, mas é profundamente estruturante. Esses gestos ajudam a criança a reconhecer o outro, a compreender limites e a construir pertencimento. Não se trata de formalidade, mas de uma aprendizagem emocional e social que acontece no cotidiano.

Outro ponto importante é entender que comportamentos desafiadores não surgem isoladamente. Eles costumam ser atravessados por múltiplos fatores: excesso de estímulos, rotina desorganizada, pouco tempo de presença real dos adultos, dificuldade em lidar com frustrações e, muitas vezes, o próprio cansaço emocional da criança.

Um exemplo recorrente no consultório são crianças que apresentam explosões de raiva no fim do dia. Quando investigamos, encontramos jornadas longas, excesso de atividades, pouco tempo de brincar livre e uso intenso de telas. Nessas situações, o comportamento não é um “capricho”, mas um sinal de esgotamento.

A entrada na escola, por volta dos seis anos, também costuma ser um momento sensível. A criança passa a lidar com regras coletivas, comparação com os pares e maiores exigências emocionais e cognitivas. É comum que surjam irritações, inseguranças ou mudanças de comportamento. Mais do que corrigir, esse é um momento que pede acompanhamento e presença.

A baixa tolerância à frustração, tão associada às novas gerações, também merece um olhar mais cuidadoso. Nenhuma criança nasce sabendo esperar, perder ou lidar com o “não”. Essa capacidade é construída na relação com adultos que conseguem sustentar limites com empatia. Proteger a criança de toda frustração pode, paradoxalmente, fragilizá-la.

Além disso, vivemos em um contexto de estímulos rápidos e constantes. Redes sociais, vídeos curtos e jogos altamente recompensadores podem impactar a atenção, a paciência e a capacidade de esperar. Isso não significa que a tecnologia seja um problema em si, mas que precisa de mediação. Como em tudo na infância, é a presença do adulto que transforma a experiência em aprendizado.

Também é importante diferenciar comportamentos esperados do desenvolvimento de situações que merecem atenção especializada. Condições como TDAH, ansiedade, depressão infantil, transtorno do espectro autista ou dificuldades de aprendizagem podem estar associadas a comportamentos considerados inadequados. Quando há intensidade, frequência e prejuízo nas relações ou na escola, buscar ajuda é um gesto de cuidado, não de exagero.

No dia a dia, algumas atitudes fazem diferença: estabelecer uma rotina previsível, sustentar limites com consistência, nomear emoções antes de corrigir comportamentos, oferecer presença real e ensinar pelo exemplo. A criança aprende muito mais com o que vive do que com o que ouve.

Por fim, é importante desfazer uma confusão comum: parentalidade respeitosa não é parentalidade permissiva. Respeitar a criança não significa deixá-la fazer tudo. Significa reconhecer o que ela sente, sem abrir mão da responsabilidade adulta de conduzir. Como nos ensinou novamente Donald Winnicott, a criança precisa de um ambiente “suficientemente bom.” Isso significa que não é perfeito, mas presente, firme e afetivo.

Talvez, então, a pergunta não seja se as crianças de hoje estão mais difíceis. Mas se nós, adultos, estamos conseguindo oferecer o tipo de presença que esse tempo exige.


Fonte: Revista Crescer 




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