O bebê 'Hércules' que ajudou a desvendar o segredo do crescimento dos músculos


Nascido na Alemanha com uma rara mutação genética, menino tinha força e musculatura extraordinárias; seu caso impulsionou pesquisas com drogas que bloqueiam a miostatina

(Bebê — Foto: Magnific)

A história do desenvolvimento de drogas para ganho de massa muscular começa com o nascimento de um bebê. Não um bebê comum, mas um com físico e força dignos de um pequeno Hércules. Ele nasceu na Alemanha, em algum momento da segunda metade de 1999 e seu caso veio a público em 2004, num hoje clássico estudo na revista científica The New England Journal of Medicine.

O caso foi a primeira prova de que em seres humanos a inibição de miostatina tem o mesmo efeito de hipertrofia observado anteriormente apenas em animais. Mais precisamente camundongos-músculos e bois da raça Belgian Blue. Aos 7 meses, o bebê já tinha a musculatura hipertrofiada e definida.

Na época da publicação do estudo, quando estava com 4 anos e meio, o menino era capaz de sustentar em cada mão pesos superiores a três quilos com os braços estendidos, coisa que mesmo alguns adultos têm dificuldade para fazer.

A descoberta impulsionou décadas de pesquisas farmacêuticas focadas no desenvolvimento de bloqueadores de miostatina, como anticorpos monoclonais. O objetivo não era produzir Hércules de farmácia, mas desenvolver tratamentos para sarcopenia e doenças musculares graves, coisa que até hoje não se conseguiu.

A identidade do bebê jamais foi revelada para preservar sua privacidade. Mas ele seguiu sendo acompanhado pela equipe do neuropediatra Markus Schuelke, da Universidade Charité de Berlim.

A então criança nasceu com uma mutação genética rara e recessiva em ambas as cópias do gene MSTN. Esse gene determina a produção da miostatina, a proteína que limita o crescimento muscular.

Mas, diferentemente do que se poderia especular, o menino não se tornou um Arnold Schwarzenegger em miniatura. Foi uma criança de aparência normal, sem chamar atenção especial. Porém, a diferença era que, se precisasse ou lhe pedissem, exibia uma força descomunal para a idade.

O menino vinha de uma família com tradição em esporte profissional e herdou tanto do pai quanto da mãe uma cópia do gene mutada. Se sabe que sua mãe era uma velocista que possuía a mutação em apenas numa das cópias do gene. Isso lhe conferia músculos mais fortes que a média, embora de forma bem mais atenuada que o filho. Sobre o pai nada mais foi revelado.

O temor dos médicos era que o menino desenvolvesse problemas cardíacos. Como o coração é um músculo, havia preocupação que a ausência de miostatina pudesse causar uma hipertrofia cardíaca perigosa à medida que ele crescesse.

Mas não há relatos sobre isso. Apenas de que ele teve uma adolescência normal. Como sua identidade não foi revelada, seu destino segue desconhecido.

O segundo caso mundialmente famoso de uma pessoa com mutação de inibição da miostatina é o do americano Liam Hoekstra, cuja infância foi tema de documentários que o retrataram como o "bebê mais forte do mundo" e "mini-Hulk".

Liam nasceu em Roosevelt Park, Michigan, em 1 setembro de 2005. Foi adotado ainda recém-nascido pela família da qual herdou o nome. Sua mãe biológica o colocou para adoção com medo que tivesse problemas médicos. Ele desde cedo chamou atenção pelo físico extraordinário.

Aos 5 meses, ele já conseguia se sustentar em barras de ginástica. Com 1 ano e meio, arrastava móveis pela sala de casa sem esforço. Aos 3 anos, seu abdômen estava definido, seu percentual de gordura era quase zero e tinha força equivalente à de uma criança com o dobro da sua idade.

O corpo de Liam produz uma quantidade insuficiente de miostatina. E, por isso, suas fibras musculares crescem de forma acelerada e com uma densidade muito acima do normal. Seu metabolismo é acelerado e seus músculos consomem tanta energia que ainda na infância ele precisava fazer seis refeições por dia.

Ao entrar na adolescência, porém, Liam optou por proteger sua privacidade, não deu mais entrevistas e sumiu dos olhos do público. Hoje ele tem 21 anos.


Fonte: O Globo



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