Pai de Noah, de quatro anos, criador de conteúdo relembra a gestação e defende relações mais presentes com os filhos
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No quarto preparado para a criança — Foto: Acervo pessoal
Pepino, palmito, azeitona, picles. Roberto Bete, 36, começou a sentir uma vontade incomum de comer conservas, a ponto de preparar potes em casa para dar conta do desejo. Érica, sua então companheira, desconfiou que havia algo diferente e deixou um teste de gravidez sobre a pia do banheiro. Roberto, que já havia praticamente desistido de engravidar depois de meses de tentativas, ignorou o teste por uma semana.
Quando finalmente resolveu fazê-lo, entrou no banho e deixou o resultado aparecer sozinho. Ao sair, viu as duas linhas. “Uma coisa é você imaginar, outra coisa é estar lá o positivo. Deu um bug na minha cabeça naquele momento”.
Era madrugada. O casal pediu outro teste por aplicativo. O resultado foi novamente positivo. No dia seguinte, procuraram um laboratório. O exame de sangue indicou que Roberto já estava perto do terceiro mês de gestação. Ainda sem conseguir acreditar completamente, ele quis fazer uma ultrassonografia. A confirmação veio ao ouvir o coração do bebê.
“Quando o coraçãozinho apareceu, eu e ela começamos a chorar. Foi um negócio de: ‘É isso, está aqui, é real, está acontecendo”. Roberto se define como um “pai parturiente”. Homem trans, foi ele quem gestou Noah, hoje com quatro anos. A gravidez realizou um desejo que carregava desde a infância: ser pai e construir com o filho uma relação marcada pela presença.
Roberto e a mãe da criança — Foto: Acervo pessoal‘Queria ser um pai presente’
Roberto tinha nove anos quando seus pais se separaram. Conta que o pai foi pouco presente durante parte de sua infância. Hoje, diz compreender melhor as circunstâncias daquela época e ter uma boa relação com a família, mas a experiência teve influência na maneira como passou a imaginar a própria paternidade. “Queria ser um pai presente. Sentia muita falta dessa presença do meu pai.”
Durante anos, Roberto pensou que teria um filho por meio de inseminação artificial. Engravidar não fazia parte dos planos, inclusive depois da transição. A possibilidade começou a parecer concreta quando ele conheceu histórias de outros homens trans que haviam gestado. Uma delas era a de um personal trainer de Porto Rico. Ao vê-lo grávido, Roberto percebeu que a experiência não diminuía a forma como enxergava a masculinidade daquele homem.
Mais tarde, conheceu Érica. O desejo dela de ser mãe apareceu desde o início da relação, enquanto Roberto já começava a considerar a possibilidade de gestar. Quando decidiram tentar, procuraram o serviço de saúde no qual Roberto já fazia acompanhamento. Os dois interromperam o uso de hormônios e passaram por exames.
Roberto levou cerca de um ano e dois meses para voltar a menstruar. Depois vieram sucessivas tentativas sem resultado. A espera começou a desgastar também a relação do casal. Foi justamente depois de um período de crise entre os dois que apareceram as conservas — e, em seguida, o teste positivo.
Gestação e masculinidade
A realização do sonho de ser pai não eliminou os conflitos durante a gravidez. Roberto relata momentos de disforia diante das transformações do corpo, além da sensação de vulnerabilidade por não conseguir fazer tudo a que estava acostumado. Também teve períodos em que questionou a própria decisão.
A doula e a espiritualidade, segundo ele, ajudaram durante o processo. Aos poucos, Roberto passou também a rever ideias que havia construído sobre gênero. “Comecei a me desprender dessa construção cultural do que é ser homem e do que é ser mulher.”
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No dia do parto — Foto: Acervo pessoal
Ele afirma que foi bem acolhido durante a maior parte da gestação. O episódio de transfobia de que se lembra aconteceu em um pronto-socorro público de Guarulhos, onde procurou atendimento depois de ficar doente. Ao informar durante a triagem que estava grávido, uma profissional passou a questionar sua identidade de gênero. Roberto diz que estava mal demais para reagir naquele momento.
Ainda assim, considera ter vivido uma situação diferente da encontrada por outros homens trans. Ele atribui parte dessa experiência a fatores como ser branco, ter alta passabilidade, possuir carro e ter independência financeira. “Tenho amigos próximos que têm uma realidade diferente, tanto social quanto racial, e sofreram”.
Da hamburgueria à internet
A chegada de Noah também mudou os planos profissionais do pai. Na época, ele era dono de uma hamburgueria. Antes do nascimento, o casal havia combinado que Roberto continuaria trabalhando enquanto Érica ficaria mais tempo com o bebê.
A realidade foi diferente. Érica havia passado por um processo para conseguir amamentar Noah. Ao mesmo tempo, os dois enfrentavam o cansaço dos primeiros dias com um recém-nascido e uma onda de ataques nas redes sociais.
Pouco antes do parto, haviam participado de uma campanha internacional da Calvin Klein. A repercussão trouxe entrevistas, inclusive de veículos estrangeiros, mas também comentários transfóbicos. O casal ainda não tinha uma rede de apoio próxima.
Quinze dias depois do nascimento, Roberto precisou voltar à hamburgueria. Sem funcionário para a função, chegou a trabalhar na chapa. Enquanto ele estava no estabelecimento, Érica ficava com Noah. A situação levou Roberto a reconsiderar a rotina.
“Mal conseguia ver o Noah. Chegava à noite e pegava aquela parte do choro, de ficar acordado. Na parte ativa do dia dele, eu não estava lá. Meu filho acabava de sair de dentro de mim e eu não estava curtindo meu filho”. Ele decidiu deixar o negócio e apostar profissionalmente nas redes sociais.
A internet já fazia parte de sua trajetória. Roberto começou a produzir vídeos ainda no início da transição, quando trabalhava como motorista de aplicativo. Um deles viralizou e trouxe os primeiros trabalhos como influenciador. Nas redes, falava sobre transexualidade e empreendedorismo. Depois do nascimento de Noah, passou a encarar o perfil como um trabalho. A entrada em uma agência ajudou a profissionalizar a atividade.
Hoje, além de trabalhar com internet, Roberto atua com reformas e transformações de ambientes, empresa criada em sociedade com um amigo.
Duas casas
Roberto e Érica se separaram quando Noah tinha cerca de um ano. Desde então, dividem os cuidados com o filho em uma guarda alternada. Noah passa uma semana com cada um. As casas ficam próximas e a divisão é flexível: caso um dos dois precise trabalhar ou o menino queira ficar com o outro, eles se reorganizam.
“Quando ele quer ir para lá, ele vai. Quando ele quer vir para cá, ele vem”. Até os dois buldogues franceses da família acompanham a alternância. Roberto descreve a relação atual com Érica como uma parceria. Os dois se ajudam nos cuidados com o filho e conseguem alterar a rotina quando necessário.
Quando Noah está com o pai, os dias são organizados em torno da criança: café da manhã, escola, jantar, passeios e brincadeiras. “Na minha semana com ele, é a semana do Noah. Vou sair só para lugares que têm criança, vou fazer coisas que crianças podem fazer. O final de semana é o passeio dele.”
Eles vão a parques, viajam, visitam familiares e brincam juntos em casa. Recentemente, uma impressora 3D ganhou a função de “fábrica de brinquedos” da dupla. Caixas de papelão também viram brincadeira. Para Roberto, é justamente nessa rotina comum que a paternidade se concretiza.
Exposição nas redes
A gravidez ainda aparece com frequência no conteúdo de Roberto. Quando vídeos sobre aquele período ultrapassam sua audiência habitual, ele diz que os ataques transfóbicos aumentam. Com o tempo, porém, passou a dar menos importância aos comentários e também a observar que as reações negativas acabam aumentando o alcance das publicações.
“Da mesma forma que vem hater, vem muita gente legal. Gente que fala: ‘Nunca vi, mas estou encantado com essa história’. Essa balança acaba ficando mais positiva do que negativa”. A exposição de Noah nas redes, afirma, segue alguns limites. Roberto diz que não publica imagens do filho usando uniforme escolar nem momentos em que ele esteja chateado ou em situações constrangedoras.
Também afirma que o menino participa dos vídeos quando quer. A visibilidade trouxe ainda uma cobrança para que Roberto assumisse constantemente um papel de representante ou militante da comunidade trans. Durante algum tempo, tentou ocupar esse espaço, mas diz que a experiência passou a prejudicar sua saúde mental. “Acho que a minha vida em si, tudo que eu trago nas redes, de certa forma é uma militância.”
Roberto com o filho — Foto: Acervo pessoal“O exemplo é o que cria”
Uma das principais reflexões de Roberto sobre a paternidade surgiu de uma cena pequena. Noah tinha menos de um ano quando pegou um tênis do pai e tentou colocá-lo nos próprios pés. Roberto percebeu que o menino estava simplesmente repetindo um comportamento que observava em casa. “Ele só está fazendo isso porque me vê fazendo.”
A lembrança mudou a forma como passou a pensar sobre educação e sobre o papel dos pais na formação dos filhos. Para Roberto, o debate sobre a ausência paterna não deve olhar apenas para os homens que já são pais. Ele acredita que a mudança começa na maneira como os meninos são educados.
Isso significa ensiná-los a cuidar da casa, tratar bem as mulheres e compreender que o cuidado não é uma responsabilidade exclusivamente feminina. “É observar quem é você dentro da sua casa, na frente dos seus filhos. O exemplo é o que cria. Não é o que você fala.”
Quatro anos depois do nascimento de Noah, o sonho que Roberto carregava desde menino se traduz menos em acontecimentos extraordinários do que em uma sucessão de tarefas comuns: levar à escola, preparar o jantar, inventar brinquedos, organizar os passeios e estar por perto. A presença que sentiu falta na própria infância é justamente aquela que agora tenta oferecer ao filho.
Com informações do GQ.globo

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