Empresária revela como descobriu que marido era gay após 11 anos de casamento


Empresária e mãe de três filhos, Pam Moraes, hoje com 38 anos, conta com exclusividade à CRESCER como entrou em um casamento aos 16 anos sem estar apaixonada, descobriu anos depois que o marido mantinha relacionamentos com homens e precisou enfrentar a própria família para reconstruir a vida

Ainda adolescente, aos 15 anos, Pam Moraes já sabia muito bem o que queria. Ela tinha um plano para a própria vida, que envolvia estudar, sair da cidade pequena onde morava e construir o próprio caminho. Casamento, naquele momento, não fazia parte dos seus sonhos. Mas tudo mudou quando um garoto novo chegou à cidade e chamou a atenção. Não dela, mas de sua mãe.

Onze anos e dois filhos depois, Pam descobriu que seu marido era gay — Foto: Arquivo 
pessoal/ Pam Moraes

“Eu não queria. Meu sonho de vida mesmo sempre foi estudar, mudar da minha cidade, ir longe”, conta Pam, em um depoimento exclusivo a CRESCER. No entanto, naquela época, o rapaz se mostrou interessado nela e sua mãe enxergou uma oportunidade de casamento, mesmo a filha sendo ainda muito jovem e não tendo manifestado o mesmo interesse – o que parecia simplesmente não importar, na época.

Hoje com 38 anos e mãe de três meninos, Pietro, 20, Erick, 17, e Túlio, 2 (sendo o caçula do atual casamento), ela explica que passou a viver um pesadelo a partir dali. A família fazia uma pressão diária para que aceitasse o relacionamento. De acordo com ela, isso envolvia, inclusive, agressões físicas. A mãe começou a controlar aspectos pessoais da sua vida, como roupas e cuidados com o cabelo.

A pressão chegou a um ponto em que Pam sentiu que já não tinha direito de decidir sobre a própria existência. “Foi um dia específico, assim, que eu olhei para o céu e falei: ‘Cara, minha vida não é minha. Minha vida é da minha mãe’”, lembra.

Foi então que ela cedeu. Sem forças para lutar, ela comunicou a mãe que aceitaria namorar com o jovem. A partir dali tudo aconteceu em uma velocidade que hoje, olhando para trás, parece impossível até de compreender. “Começamos a namorar em outubro, noivamos em novembro e nos casamos em junho. Tudo isso, nessa ordem mesmo”, lembra. No dia do casamento, ela só tinha 16 anos.


“Eu não gostava dele”

O casamento começou sem que Pam estivesse apaixonada. Ainda assim, ela descreve o então marido como uma pessoa boa, carinhosa e de coração generoso. Isso contribuiu para que ela permanecesse naquela relação por anos. “Quando eu aceitei me casar e entendi que a minha vida era da minha mãe, aceitei toda aquela situação. Então, vivi infeliz. Eu não gostava dele, mas ele era uma pessoa muito bacana, muito legal, tinha um coração enorme”, desabafa. Ela explica que, de certa forma, passou a viver em uma zona de conforto, onde a própria felicidade não importava.

Havia também uma dificuldade na intimidade do casal que, na época, Pam não conseguia compreender. Ela conta que o marido não a beijava na boca, já que tinha “nojo”. Como não havia nenhum tipo de preliminar, quando as relações aconteciam, ela frequentemente ficava machucada. Sem entender o motivo, chegou a procurar médicos diversas vezes. “Eu achava que o problema era comigo”, conta.


Suspeita adormecida

Ainda muito jovem, Pam começou a ouvir comentários estranhos sobre o marido. Parentes chegaram a contar que ele teria se relacionado com homens. Certa vez, a cunhada dela contou que ele teria ficado com um primo. “Eu achei muito esquisita aquela história e falei: ‘Gente, que loucura é essa? Que coisa estranha, né? Como assim? Por que ela veio me contar uma coisa dessa?’ Deixei passar, mas fiquei com aquilo na cabeça, né?”, lembra.

Em outro momento, quando ouviu que o marido estaria com outra pessoa, Pam já estava grávida. Àquela altura, estava tão entregue e habituada, que a possibilidade de perder a vida que conhecia a assustava. “Meu mundo desmoronou”, relata. Ela ficou com medo do que aconteceria com ela, ainda mais durante uma gravidez.

Ainda assim, criou coragem e foi perguntar ao marido, que, é claro, negou tudo. Assustada, escolheu acreditar. É preciso lembrar que ela só tinha 16 anos, vivendo em uma situação completamente inusitada. Não tinha experiência ou repertório para enfrentar algo tão difícil.

A certeza veio anos depois. No aniversário de dez anos de casamento, os dois fizeram uma viagem e se hospedaram em um hotel. Pam dormiu e, ao acordar, viu o então marido assistindo a uma cena pornográfica de dois homens. “Quando eu acordei, eu não me movimentei. Só abri os olhos e vi a cena. Meu coração só faltava pular pela boca”, conta.

Na época, Pam não o confrontou. Naquele momento, além de ter certeza de que todas as histórias que tinha ouvido eram verdade, ela também compreendeu que o marido carregava uma história de sofrimento relacionada à própria sexualidade.

“Eu sabia que ele tinha sofrido muito. O pai dele tinha mudado de cidade justamente por causa da história de quando ele estava com o primo. Ali, tudo começou a fazer sentido. Era tudo real”, avalia. Ali, ela se deu conta de que estava casada com um homem que era gay, depois de dez anos e dois filhos.

Apesar de tudo ter ficado explícito, a separação não foi fácil. A família e a comunidade religiosa da qual fazia parte continuavam fazendo pressão para que ela mantivesse o casamento. “Meu pai me xingava, minha mãe pedia ‘pelo amor de Deus’. Mas não dava mais. Eu bati o pé, já era maior de idade. Aí eu pensei: ‘Essa vida é minha, não é da minha mãe’. Aí eu peguei minha vida de volta”, conta.


Os filhos e a nova família

No meio de toda essa confusão, havia duas crianças, o que pesou para que o marido não aceitasse facilmente a separação, mesmo tendo sua verdade escancarada. “Ele não queria mesmo. Sofreu muito, porque sabia que ficaria longe dos filhos e nunca mais a mesma coisa”, diz ela.

Mas o desfecho era inevitável e, depois da separação, segundo ela, o ex-marido passou a viver de forma mais aberta a própria sexualidade. Pam diz que os filhos continuaram amando o pai e que ela fez questão de respeitar a maneira como eles tomaram conhecimento da história. “Eu nunca contei. Meus filhos souberam de tudo pela boca dele. Eu respeitei isso”, afirma.

Antes de ter um diálogo, porém, um dos filhos, Pietro, acabou descobrindo conversas do pai no celular. “Ele viu no celular do pai conversas de Tinder com um homem e questionou. Aí o pai dele desconversou, mas logo depois começou a namorar um cara. Aí teve de contar”, explica.

Apesar de tudo, Pam faz questão de separar o fim do casamento da relação entre pai e filhos. “Ele é um ótimo pai. Os filhos o amam”, ressalta. Para ela, de forma alguma a sexualidade do ex-marido apaga ou mesmo interfere no carinho e o vínculo que os filhos têm com ele.


Uma nova vida no Canadá

Hoje, Pam mora em Vancouver, no Canadá. Está casada novamente, teve o terceiro filho, deste novo casamento, comanda uma empresa e diz estar vivendo uma fase completamente diferente daquela adolescente que um dia acreditou que não poderia decidir o próprio destino. “Amo a minha vida aqui, sou casada, estou muito bem”, celebra.

Um dia, resolveu contar a própria história nas redes sociais e o relato acabou alcançando muito mais pessoas do que imaginava. A repercussão a surpreendeu. Mas, para Pam, o assunto vai muito além da história de um casamento com um homem que posteriormente assumiu relacionamentos com outros homens.

“Sinto que estou mexendo em um vespeiro porque o marido gay não é nem o foco principal. A questão é que, assim como aconteceu comigo, meninas tão jovens crescem e são induzidas, ou até mesmo, como foi meu caso, são obrigadas a casar com pessoas que nem gostam”, diz.

É nesse ponto que o desabafo de Pam deixa de ser apenas a história do fim de um casamento, depois de uma verdade vir à tona. Ela era uma adolescente que acreditava não ter escolha, tinha uma mãe que tomou decisões por ela e uma mulher que, anos depois, precisou reconstruir a própria noção de liberdade. Aos 15, Pam dizia que sua vida não era dela. Hoje, olha para trás e entende que a separação foi também um reencontro consigo mesma. “Essa vida é minha... essa vida não é da minha mãe”, completa. Apesar disso, ela retomou o contato com os familiares e diz estar bem com isso. “Me curei de todas as dores”, conclui.

Com informações da Revista Crescer





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