Golpes se multiplicam e causam muito prejuízo: criminosos exploram confiança, pressa e medo das vítimas


Falsos advogados, compras pela internet, supostos funcionários de bancos, venda de imóveis, animais, medicamentos e até investimentos aparecem entre ocorrências recentes. Casos mostram que o golpe mudou: muitas vezes, o criminoso já chega sabendo nomes, valores e informações pessoais.


Não existe mais um único “golpe da internet”. Os relatos de casos ocorridos em municípios da região Noroeste do ES revelam algo mais preocupante: as fraudes estão se diversificando e se tornando cada vez mais convincentes.

Em poucos dias, aparecem situações envolvendo falso advogado, falso funcionário de banco, compra de pneus, negociação de animal, aquisição de medicamento, investimento pela internet, venda de imóvel e compras desconhecidas no cartão.

Os valores variam de algumas centenas a dezenas de milhares de reais. Mas há uma característica comum em muitos episódios: o golpista procura criar uma situação aparentemente legítima e induzir a vítima a agir rapidamente.

Em alguns casos, o criminoso demonstra conhecer informações verdadeiras sobre a pessoa. É justamente aí que mora um dos maiores perigos.


Quando o golpista já sabe quem você é

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em Colatina: A vítima havia ingressado com uma ação judicial contra uma empresa aérea por problemas ocorridos durante uma viagem. Posteriormente, recebeu mensagens de pessoas que demonstravam conhecer informações e possuir cópias de documentos relacionados ao processo.

A abordagem avançou até a orientação para baixar aplicativos e acessar sites sob o argumento de que seriam necessários procedimentos relacionados ao recebimento de valores.

O caso serve como alerta porque derruba uma ideia ainda comum: a de que todo golpe começa com uma história absurda ou facilmente identificável. Nem sempre.

Quando o criminoso menciona um processo que realmente existe, uma compra verdadeira, o nome de um advogado ou outro dado correto, a vítima tende naturalmente a baixar a guarda.

Informação verdadeira, porém, não transforma quem está do outro lado do telefone em uma pessoa verdadeira.


“Sou do INSS”, “sou do banco”, “sou seu advogado”

Outro relato de Baixo Guandu mostra uma estratégia semelhante.

Uma pessoa recebeu uma ligação pelo WhatsApp de alguém que se apresentou como funcionário do INSS e afirmou que estaria sendo realizado um procedimento preventivo contra fraude.

A vítima desconfiou e procurou uma agência bancária. Mesmo assim, posteriormente constatou movimentação de R$ 15 mil, segundo as informações.

Em outra ocorrência, uma mulher recebeu contato de alguém que teria se apresentado como seu advogado. Depois surgiu um segundo personagem, que se passava por juiz.

A conversa envolveu videochamada, suposta liberação de valores e movimentações bancárias. A vítima acabou percebendo que havia caído em um golpe depois de perder cerca de R$ 20 mil, conforme o relato.

O roteiro pode mudar, mas o mecanismo é parecido: criar autoridade.

O golpista não quer parecer um desconhecido. Quer parecer alguém em quem a vítima teria motivos para confiar.


Compra de pneus termina em prejuízo

Até uma compra aparentemente comum pode esconder uma fraude.

Em Colatina, uma pessoa encontrou pela internet uma suposta empresa de pneus e realizou o pagamento por Pix. Depois da confirmação da compra, recebeu a informação de que chegaria um e-mail com os dados para retirada. O e-mail não chegou.

Ao procurar diretamente a empresa verdadeira, descobriu que provavelmente havia acessado uma página falsa.

Esse tipo de caso mostra a importância de não confiar apenas na aparência de um site ou anúncio.

Antes de fazer um Pix, é fundamental conferir quem efetivamente receberá o dinheiro.


Compra de animal também virou armadilha

Em outro episódio registrado em Colatina, uma negociação envolvendo a compra de um animal terminou em prejuízo.

A vítima relatou ter negociado por WhatsApp com uma suposta empresa e efetuado R$ 1.475 em pagamentos. O animal, entretanto, não teria sido entregue, e os contatos passaram a ser ignorados.

O problema se repete em diferentes produtos: o anúncio existe, o vendedor conversa normalmente, apresenta condições de pagamento e mantém contato até receber o dinheiro. Depois, desaparece.


Até compra de medicamento aparece entre os casos

Outro relato envolve uma pessoa que teria realizado pagamentos pela compra de um medicamento. O produto não foi entregue.

Durante a espera, surgiram justificativas e informações sobre supostos intermediários responsáveis por buscar ou entregar a mercadoria.

O episódio reforça uma regra simples: quanto maior a quantidade de intermediários, mudanças de versão e pedidos adicionais durante uma negociação, maior deve ser a cautela antes de enviar qualquer novo valor.


Casa anunciada na internet e depósito de R$ 44 mil

Há também uma negociação envolvendo um imóvel anunciado na internet.

O interessado manteve contato com uma pessoa que se apresentou como responsável pela negociação e chegou a visitar a residência. Posteriormente, realizou um depósito de R$ 44 mil.

Ao retornar para formalizar a negociação, teria descoberto que o valor informado pelo verdadeiro proprietário era diferente daquele apresentado durante as conversas.

O episódio evidencia outro risco: ver pessoalmente o produto ou imóvel não significa necessariamente que a pessoa que está intermediando a negociação tenha autorização para vendê-lo.


Golpe também pode começar com uma oportunidade

Outro caso ocorrido na zona rural de Colatina envolveu uma plataforma apresentada como oportunidade de investimento.

A vítima abriu uma conta e enviou documentos pessoais para realizar o cadastro. Depois começou a desconfiar da operação e procurou registrar o ocorrido por preocupação não apenas com o dinheiro investido, mas também com a possibilidade de seus documentos serem utilizados em outras fraudes.

Esse ponto merece atenção especial.

Em alguns golpes, o prejuízo pode não terminar no primeiro pagamento. Documentos, fotografias, dados bancários e informações pessoais entregues aos criminosos podem ser usados posteriormente para novas tentativas de fraude.


O perigo da urgência

Ao observar os diferentes relatos, existe uma característica que atravessa muitos deles: a vítima é levada a tomar uma decisão antes de ter tempo suficiente para conferir a história.

É o dinheiro que precisa ser transferido naquele momento. O procedimento bancário que precisa ser feito imediatamente. O valor judicial que estaria prestes a ser liberado. A oportunidade que não pode ser perdida. A pressa beneficia o golpista.

Por isso, diante de qualquer pedido inesperado envolvendo dinheiro, uma das melhores atitudes é justamente fazer aquilo que o criminoso não deseja: interromper a conversa e conferir tudo por outro meio.

Se alguém disser que é seu advogado, encerre o contato e telefone para o número que você já possuía do profissional. Se disser que é do banco, não siga orientações recebidas naquela ligação; procure os canais oficiais ou a agência. Se for uma empresa, pesquise o CNPJ, telefone e endereço independentemente do link enviado pelo vendedor.

E, principalmente, confira o nome de quem receberá o Pix antes de confirmar a transferência.


Golpe bem elaborado não parece golpe

Talvez esta seja a principal reflexão deixada pela sequência de ocorrências.

Durante muito tempo, alertas contra fraudes se concentraram em mensagens mal escritas, ofertas absurdas ou contatos claramente suspeitos. Isso continua existindo, mas os relatos atuais mostram estratégias muito mais sofisticadas, como:

O criminoso pode conhecer seu nome.
  • Pode saber que você tem um processo.
  • Pode mencionar o nome verdadeiro do seu advogado.
  • Pode saber que você realizou determinada compra.
  • Pode utilizar fotografia, logotipo e linguagem de uma empresa conhecida.
  • Pode até permitir que uma negociação avance por vários dias antes de pedir dinheiro.
Por isso, a pergunta deixou de ser apenas “essa história parece verdadeira?”. A pergunta mais segura passou a ser:

“Eu confirmei, por um canal independente, que estou realmente falando com quem essa pessoa diz ser?”

Essa pequena mudança de comportamento pode representar a diferença entre interromper uma tentativa de fraude e perceber o golpe somente depois que o dinheiro saiu da conta.
Antes de transferir dinheiro, adote cinco cuidados: 
  • desconfie de qualquer pessoa que imponha urgência para pagamento.
  • Mude o canal: recebeu mensagem? Confirme por telefone ou pessoalmente usando um contato que você mesmo pesquisou.
  • Confira o destinatário do Pix: nome diferente do vendedor, empresa ou profissional exige explicação antes do pagamento.
  • Não instale aplicativos nem compartilhe a tela do celular por orientação de desconhecidos.
  • Não forneça senhas, códigos de confirmação ou acesso bancário, mesmo que a pessoa saiba informações verdadeiras sobre você.


Da Redação / Com informações ES Fala



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