Acordo UE-Mercosul avança e agro brasileiro ganha protagonismo em negociação histórica


Após mais de 25 anos de negociações, pacto de livre comércio pode ampliar mercado para exportações brasileiras, mas levanta debates sobre cotas, padrões ambientais e competição na Europa


Após cerca de 25 anos de negociações, a União Europeia (UE) aprovou provisoriamente um acordo comercial com o Mercosul — um pacto que pode abrir mercados bilionários para produtos brasileiros, mas também traz desafios complexos em tarifas, cotas, regras sanitárias, ambientais e política internacional. 

O acordo UE-Mercosul é um tratado de livre comércio entre a UE e os países membros do Mercosul, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. A ideia é reduzir tarifas e barreiras comerciais, aumentando o fluxo de bens e serviços entre os dois blocos. Ele foi aprovado provisoriamente pela maioria dos países da UE em janeiro de 2026, após décadas de impasse. A formalização definitiva ainda depende da aprovação no Parlamento Europeu e confirmações finais dos Estados-membros. 


 Oportunidades para o agronegócio brasileiro

1. Ampliação e diversificação de mercados

O bloco europeu agrega centenas de milhões de consumidores com alto poder aquisitivo. O acordo pode criar previsibilidade para exportadores brasileiros, reduzindo dependência de mercados como a China e os Estados Unidos. 

2. Produtos com potencial de crescimento

Setores do agronegócio que devem se beneficiar incluem:
  • Carne bovina — a UE é um dos principais destinos de carne premium brasileira e pode ampliar exportações com redução de tarifas e exigências mais claras. 
  • Soja e derivados (farelo, óleo) — com exportações já elevadas, a redução de barreiras ajuda a consolidar o mercado europeu. 
  • Café verde — principal destino de exportações brasileiras, com forte demanda por qualidade. 
  • Celulose, frango, açúcar e etanol — setores tradicionais com potencial de crescimento com tarifas menores e cotas específicas.

3. Melhora de competitividade e estrutura legal

O acordo inclui regras que facilitam a burocracia do comércio, modernizam procedimentos de exportação e permitem que empresas brasileiras participem de compras governamentais europeias, ampliando oportunidades de negócios. 


O que muda realmente nas tarifas e cotas

O texto prevê a eliminação gradual da maioria das tarifas comerciais ao longo de até uma década para bens industriais e agrícolas, mas as condições variam por produto:
  • Carne bovina terá uma cota tarifária limitada (99 mil toneladas) com tarifa reduzida, representando uma pequena fração da produção total. 
  • Frango, quota isenta de tarifa, porém limitada em relação à produção total. 
  • Açúcar, nenhuma nova cota significativa será criada, mas volumes existentes continuam. 
  • Arroz e mel, cotas específicas também são previstas para suprir necessidades do mercado europeu. 
Essas quotas servem para equilibrar o mercado europeu, protegendo setores locais enquanto se abre espaço para importações. 


 Riscos e desafios para o agro brasileiro


 1. Regras sanitárias e ambientais rigorosas

A UE aplica padrões muito exigentes de saúde, fitossanidade e meio ambiente. Produtos brasileiros exportados sob o acordo precisarão cumprir integralmente essas normas, que muitas vezes são consideradas mais rígidas do que as normas domésticas em vários países do Mercosul. 


2. Mecanismos de proteção europeus (salvaguardas)

O Parlamento Europeu recentemente endureceu regras que permitem investigar e limitar importações agrícolas localmente caso aumentem mais rápido que 5 % ao ano, frente a níveis anteriores de 10 %, atendendo a pressões de agricultores europeus. 


 3. Resistência política na UE

Países como França, Polônia, Irlanda e Áustria expressaram oposição — especialmente porque temem que carne e outros produtos brasileiros, possivelmente mais baratos, pressionem produtores locais e levantem questões sobre padrões sanitários e uso de hormônios na produção.


 Impacto na economia e agricultura brasileira

Especialistas estimam que o acordo pode impulsionar o PIB brasileiro modestamente ao longo de uma década, além de aumentar exportações e atrair investimentos em infraestrutura e tecnologia para o setor rural. Isso fortalece a diversificação comercial e ajuda a reduzir a dependência de mercados específicos, especialmente em um contexto geopolítico de protecionismo crescente. 


 Oportunidades indiretas

Além do setor agropecuário, o acordo pode beneficiar:
  • Indústrias brasileiras que exportam equipamentos e tecnologia agrícola. 
  • Setores de serviços, logística e energia renovável por meio do aumento de investimentos europeus.

 Etapas finais (o que ainda falta)

Embora haja aprovação provisória pelos países membros da UE, o tratado precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu para entrar em vigor plenamente. Autoridades europeias afirmam que a assinatura se aproxima, mas ainda não há data definitiva. 

O acordo UE-Mercosul representa uma oportunidade histórica para o agronegócio brasileiro, oferecendo acesso ampliado e mais previsível a um mercado consumidor de alta renda e com potencial de valor agregado. Mas os benefícios não virão sem desafios: cotas limitadas, regras sanitárias rigorosas, mecanismos de proteção da UE e resistência política podem reduzir o impacto positivo — e exigem que o Brasil prepare o setor para competir com eficiência e sustentabilidade.




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