A busca da beleza que leva à violência


Trend da internet, looksmaxxing leva meninos a procurar soluções radicais para ter aparência masculina

Lookmaxxing seduz pela promessa de autocuidado, mas radicaliza nas soluções — Foto: Freepik

Até há pouco tempo, os graves prejuízos em crianças e adolescentes causados pelo uso excessivo de telas digitais tinham um recorte de gênero razoavelmente definido: meninas sofrendo com pressões estéticas irrealistas e comparações ascendentes, que destroem a autoestima e induzem depressão e transtornos alimentares. E os meninos sendo arrastados para a misoginia, o bullying, exposição à violência gráfica e brutal, para o vício em pornografia. As comunidades de ódio no Discord são o desdobramento mais radical e horrendo dessas tendências: tortura animal, ataques a moradores de rua e “shows” de automutilação são transmitidas ao vivo aos membros, removendo deles qualquer vestígio de sensibilidade humana.

Mais recentemente vem sendo detectado um novo e perigoso fenômeno, que está silenciosamente moldando a identidade de nossos meninos: o “looksmaxxing”, uma tendência perturbadora que mostra como a vulnerabilidade dos meninos encontrou um terreno fértil e tóxico nas redes sociais.

O que começa como um aparente desejo de autocuidado é, na verdade, a porta de entrada para mais um labirinto sombrios da internet das redes sociais.

O termo vem da junção de looks (aparência) e maximizing (maximizar). O movimento se apresenta como um guia para que rapazes alcancem o ápice de sua atratividade física. O problema é que o algoritmo não para na recomendação de um novo corte de cabelo. Ele opera em um funil de radicalização dividido em duas etapas perversas:

Softmaxxing: É a fase da "isca". Inclui práticas de higiene básica, clareamento dental e o “mewing” — exercícios de língua que prometem esculpir o maxilar. Parece inofensivo, mas é o primeiro passo para a obsessão.

Hardmaxxing: Aqui, a proposta escala para o extremismo. O jovem é incentivado a modificar sua aparência "por qualquer meio necessário". Isso inclui desde o uso de esteroides e procedimentos cirúrgicos até práticas bárbaras como o “bone-smashing”, onde o adolescente golpeia os próprios ossos da face para causar microfraturas que, supostamente, tornariam o rosto mais "masculino" ao cicatrizar.

O looksmaxxing não é apenas sobre vaidade. Ele surge de comunidades extremistas conhecidas como incels (celibatários involuntários). Ao buscarem conselhos para serem "mais atraentes", esses meninos são direcionados a comunidades onde a frustração social é transformada em ódio.

A narrativa é sedutora e cruel: ensina-se que o sucesso na paquera depende exclusivamente de uma aparência física inalcançável e que, se o jovem falha, a culpa é das mulheres. Nesse sentido, a “trend” se aproxima da ideologias red pill, que vai moldando uma personalidade deformada pelo ressentimento e pela misoginia: um caminho perigoso que leva ao isolamento e à violência.

Mais uma vez, o algoritmo do TikTok carrega boa parte da responsabilidade. Ele radicaliza na pior direção porque o extremismo gera engajamento. Um menino que pesquisa como tratar a acne ou como melhorar seu cabelo é rapidamente empurrado para vídeos que questionam sua masculinidade e, em poucos cliques, ele está consumindo conteúdo de ódio. Para um cérebro adolescente, em pleno processo de formação de identidade, a exposição contínua e cada vez mais extrema a essas comunidades funciona como uma lavagem cerebral. Ele se identifica com seus valores e discursos repetidos por horas em seus vídeos curtos, superficiais e assertivos, com “verdades” absolutas, e se sente cada vez mais pertencente ao grupo ideológico.

É preciso afastar nossos meninos desse caminho de radicalização — mesmo em suas versões mais leves. A solução é múltipla e complexa. Na família, passa por reduzir o tempo de tela, supervisionar com aplicativos parentais e oferecer atividades construtivas no mundo real — encontros com família e amigos, viagens, esportes, natureza, vida cultural. Mas sobretudo, precisamos criar momentos de diálogo sobre o que significa ser homem, desvinculando a masculinidade da agressividade, do ódio à mulher, da estética de super-herói.

Nossos filhos precisam saber que a conexão humana não acontece através de um maxilar perfeito e sobrancelhas grossas, mas através da empatia, do respeito, da igualdade de gênero, da vulnerabilidade. Essa é uma tarefa prioritária para os pais.

O ECA digital, que entra em vigor em breve, pode ajudar a difícil tarefa das famílias, com a responsabilização das plataformas e a obrigatoriedade de remoção de conteúdo tóxico, violento e misógino. Assim esperamos.

Com informações do O Globo



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