Brasileira vive novo revés após 4 anos lutando para reencontrar o filho escondido no Egito pelo pai


Em entrevista a Marie Claire, Karin Aranha atualiza o caso que corre desde 2022. Após uma grande pressão diplomática e conquistas na Justiça, ela segue batalhando para reencontrar o filho, levado ilegalmente para o Egito

‘Estava tão perto’: brasileira vive novo revés após 4 anos lutando para reencontrar o filho escondido no Egito pelo pai — Foto: Reprodução/ Instagram

Há quase quatro anos, a brasileira Karin Aranha trava uma batalha para reencontrar o filho, Adam Ahmed Tarek Aranha. Em setembro de 2022, quando o menino tinha apenas três anos, o pai, o egípcio Ahmed Tarek Mohamed Faiz Abedelkalec, o levou para o Egito sem autorização. Desde então, o caso ganhou repercussão nacional e internacional, mobilizando esforços de órgãos como a Polícia Federal, a Interpol e a Embaixada do Brasil no Cairo.

Em novembro de 2025, a Justiça egípcia concedeu a guarda da criança à mãe. A decisão, no entanto, ainda não foi cumprida, e o menino permanece sem contato. Três meses depois, Karin conta a Marie Claire que foi feita uma segunda busca e apreensão para tentar encontrar a criança. A busca aconteceu nesta segunda-feira (23) no apartamento em que Ahmed morou com Adam.

“Eu senti que estava tão perto do meu filho. Aquela casa escura, insalubre, um apartamento para sete pessoas. Eles esconderam meu filho desde a última tentativa [de contato]”.

O processo entrou, segundo ela, em uma nova fase criminal. O pai é acusado de ocultação de menor, que também é crime no país. Agora, o caso passa a contar com a atuação da Agência de Segurança Nacional, órgão responsável por interceptações telefônicas e monitoramento de redes sociais.

“Eu estou fazendo tudo dentro da lei deles. Tenho advogados egípcios, ganhei a custódia do meu filho dentro do país deles. Então, o que eles têm que fazer? Devolver o meu filho.”

O Brasil é signatário da Convenção de Haia, um acordo internacional que dá respaldo para casos como o de Karin. Esse sistema só funciona se os dois países envolvidos assinarem o tratado. O Egito não aderiu à Convenção, e por isso, não existe um canal oficial de cooperação entre os governos. É o que diz, por exemplo, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

Atualmente, o genitor consta na lista da difusão vermelha da Interpol, alerta internacional emitido para localizar e prender pessoas procuradas em outros países. O nome de Adam também foi incluído na difusão amarela, que visa à localização de crianças desaparecidas ou sequestradas.


O início do pesadelo

Karin conheceu Ahmed em 2017, por meio do Instagram, onde os dois conversaram por cerca de oito meses com a ajuda de tradutor online até ela ir para a capital do Egito, Cairo. A primeira viagem ao país foi por turismo. Na segunda, decidiu ficar e passou cerca de seis meses ao lado dele, período em que chegou a morar na casa do companheiro.

Após a temporada no Cairo, o casal decidiu tentar uma vida no Brasil. O egípcio se mudou com Karin, os dois se casaram e, pouco depois, ela descobriu a gravidez de Adam. O filho, no entanto, nasceu nos Estados Unidos, porque o marido não queria que a criança tivesse nacionalidade brasileira. “Ele conseguiu me convencer, tive o Adam sozinha nos Estados Unidos. Fiquei 42 dias naquele lugar. Voltei para o Brasil com meu filho com 28 dias de vida”, conta.

A brasileira relata que o relacionamento do casal se deteriorou rapidamente depois do nascimento do bebê. “Ele queria colocar toda a cultura dele. A parte religiosa também pegou muito”, diz ela, que afirma ter sofrido a primeira agressão física quando o filho tinha três meses e estava em seu colo. “Foi o primeiro tapa na cara que recebi. Ali, eu já tinha que ter acabado o casamento. Mas, não acabou de fato porque a gente fica vulnerável com criança pequena e acha que a pessoa vai mudar, mas ele não vai.”

A situação só piorou dali em diante. A segunda violência doméstica ocorreu quando Adam tinha seis meses: “Foi um tapa e um chute, e ele [Ahmed] é lutador de judô. Fiquei com a perna toda roxa.”

Buscando uma nova chance, o casal se mudou para Valinhos, no interior de São Paulo, pouco antes do início da pandemia de Covid-19. Mas, a decisão acabou com ambos perdendo seus respectivos empregos. “Chegamos a uma situação em que estávamos sem dinheiro para nada. Ou eu comprava uma bolacha, ou eu comprava leite para o Adam.”

Diante da crise, Karin decidiu aceitar a sugestão do marido de buscar trabalho no exterior. Em 2021, ela se mudou para a Inglaterra, onde permaneceu por dez meses trabalhando como faxineira. Nesse período, diz ter mantido contato diário com os filhos — Adam e um filho mais velho, hoje com 21 anos, fruto de um antigo relacionamento — além de enviar recursos financeiros com frequência para sustentar a família no Brasil.

“Quando eu fui checar, depois que tudo aconteceu, vi que tinha semanas que eu mandava dinheiro três vezes na semana para o Ahmed. Até o último dia, ele foi dissimulado comigo. Quando eu volto, começa todo o meu pesadelo”, revela.

Depois de retornar da Europa em setembro de 2022, a brasileira passou pelo “pior dia de sua vida”, quando Ahmed desapareceu com o filho do casal. A residência estava revirada, e todos os documentos pessoais de Karin e do filho haviam sido levados, junto com uma quantia de R$ 15 mil que a brasileira havia enviado para a família.

O ex-marido só entrou em contato cinco dias depois, por meio de uma breve chamada de vídeo, informando que estava no Egito com a criança. “Ele falou que fui eu quem tinha os abandonado [por ter ido para a Inglaterra]. Falei: ‘Quem abandona não manda dinheiro, quem abandona não fala todo dia’”, rebate.

Karin não sabe como o filho deixou o país sem autorização formal de viagem, já que, de acordo com ela, o passaporte brasileiro estava vencido e o estadunidense não possuía autorização. A hipótese é que o genitor tenha ido para o Paraguai, de lá para Madrid, na Espanha, e, por fim, para o Egito.


Paradeiro do pai é desconhecido

Logo que Adam desapareceu, em 2022, a mãe registrou um Boletim de Ocorrência e iniciou um processo judicial para recuperá-lo. A Vara da Família de Campinas ordenou, de forma imediata, que o menino fosse trazido de volta ao Brasil, proibindo ainda qualquer viagem internacional da criança sem a devida permissão da Justiça. Porém, logo no dia seguinte da decisão judicial, Karin foi surpreendida pela chamada do pai, que já havia levado o filho para o Egito.

Ela afirma que, após investigações da Polícia Federal, o caso foi enquadrado como uma variação do chamado “golpe do noivo”, prática em que estrangeiros se casam com brasileiras com o objetivo de obter cidadania. “Eu só soube que ele obteve a cidadania brasileira na delegacia. Ele nunca falou nada disso para mim”, lembra.

Desde então, a brasileira recorre à justiça brasileira e egípcia para reaver o seu filho. Durante o processo, Karin afirmou que o principal suporte veio da equipe jurídica. “Eu só me senti amparada pelos meus advogados”, declarou. Em uma das ocasiões no começo do caso, uma delegada da Polícia Federal teria minimizado a situação ao dizer que estava tudo bem pois “a criança estava com o pai”. “Mas o pai sequestra? O pai não tira filho de mãe”, rebateu.

A paulista relata ter enfrentado dificuldades em diferentes órgãos públicos e que, diante da falta de respostas, decidiu intensificar a mobilização. Em 2023, criou sua página no Instagram — que já conta com 239 mil seguidores — para expor o seu caso. “Eu precisei berrar muito na mídia. Eu fui para Brasília, bati de gabinete em gabinete de senador para hoje ter o respeito que eu tenho. Conseguimos chegar ao ministro das Relações Exteriores. Eu consegui chegar longe, mas preciso de mais.”

Segundo a Justiça Federal de Campinas, Ahmed chegou a colaborar com as investigações e levou o filho para um encontro com representantes da Embaixada do Brasil no Cairo em março de 2023. No entanto, em junho do mesmo ano, o pai mudou do endereço conhecido e deixou de passar informações às autoridades brasileiras. Em outubro daquele ano, a 1ª Vara Federal de Campinas determinou a prisão preventiva do pai, que passou a constar na difusão vermelha da Interpol.

Para acompanhar a situação de perto, Karin se mudou para o Egito há quase dois anos. Ela vive de doações de seguidoras nas redes sociais, sem rede de apoio familiar no país, contando apenas com o suporte da embaixada brasileira. “Eu me sinto muito sozinha. Meu caso não está mais nas minhas mãos”, lamenta.

Karin Aranha se mudou para o Egito para acompanhar o caso de perto — Foto: Arquivo Pessoal


‘Sei que dou o meu melhor todos os dias’

Em 26 de novembro do ano passado, data do aniversário de Adam, Karin obteve na Justiça egípcia a guarda do filho. Antes disso, a custódia havia sido transferida à avó paterna sob a alegação de que a mãe era “inapta para cuidar do filho e inadequada para exercer sua guarda”.

Os magistrados concluíram que as justificativas utilizadas pelos familiares de Ahmed para separar a criança da mãe não passavam de "boatos sem comprovação”. A sentença também aponta que, ao se converter ao Islã em 14 de julho de 2024, a brasileira invalidou o argumento de que sua presença ofereceria algum risco à educação religiosa do filho.

De acordo com Karin, seu advogado identificou que um dos três juízes do caso teria ligação com a família do genitor da criança. A defesa pediu a redistribuição do processo, que foi levado à apelação. “Os juízes inverteram a custódia para mim. Só que não adianta ter a custódia no papel se o meu filho não está comigo”, afirmou.

“Por que uma pessoa fez tudo isso, se ele só se afundou? Foi por causa de um passaporte? Ele acabou com a vida do Adam. Quando crescer e começar a entender isso, vai ser um trauma para o resto da vida.”

Ao falar sobre a possibilidade de reencontrar seu filho, Karin diz que tenta controlar as expectativas. “Eu entreguei nas mãos de Deus, porque já criei muita expectativa que não aconteceu. Mas ele vai sentir que eu sou mãe dele. Eu sei que dou o meu melhor todos os dias.”

A luta para reencontrar Adam a transformou em ativista contra a subtração internacional de crianças. Ela não imaginava que se tornaria referência para outras mulheres em situação semelhante. “Eu precisei berrar, não tinha outra alternativa. Ele me deixou sem nada, roubou a conta inteira. A única coisa que eu tinha era falar”, declarou.

“Se não fosse a minha rede social, eu não estaria aqui, não estaria falando no Senado, não teria dinheiro para pagar advogados caríssimos. Eu sou muito grata por tanta gente que me ajuda.”


O que dizem as autoridades

Em nota, o Itamaraty informou, por meio da Embaixada do Brasil no Cairo, que vem oferecendo apoio consular, além de intermediar o diálogo com as autoridades locais e com o escritório que representa a mãe brasileira. A pasta também declarou que tem disponibilizado documentos, serviços de tradução, orientação jurídica e outras medidas de suporte adotadas em situações de subtração internacional de menores.

Em 9 de fevereiro, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, entrou em contato por telefone com o chanceler do Egito, Badr Abdelatty, para tratar do assunto. Durante a conversa, pediu o retorno imediato da criança a Karin Aranha, destacando a “sensibilidade da situação e a decisão da Justiça egípcia que concedeu a guarda à mãe.”

“O telefonema se soma a diversas outras gestões efetuadas pela Embaixada do Brasil no Cairo junto a órgãos do governo egípcio ao longo dos últimos meses, sempre com o objetivo de promover a resolução do caso e o retorno do menor ao Brasil”, finalizou.

Com informações Marieclaire




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