De dois quilos molhada a 180 gramas: como marca pioneira de camisas resiste há 90 anos no Brasil


Fornecedora que vestiu a Seleção nas Copas de 1958, 62 e 70 doava os uniformes para grandes clubes antes de o mercado mudar, movimentar cifras bilionárias e quase extinguir a empresa

A confecção de camisas para clubes de futebol passou por uma transformação brutal nas últimas décadas, seja no método de fabricação, no uso de matéria-prima ou no modelo de negócio que atualmente movimenta bilhões ao redor do mundo.

No Brasil, o fornecimento de material esportivo começou a partir da necessidade dos clubes em ter uma empresa que garantisse o recebimento de uniformes – um segmento que até então não era explorado pelo mercado de confecções.

A empresa que pode ser considerada pioneira no fornecimento de material esportivo para o futebol brasileiro foi fundada em 1935, em São Paulo.

Inicialmente, a Athleta atuava no segmento fashion e na produção de uniformes escolares. Aos poucos, em meados da década de 1950, passou a ingressar no futebol, fazendo a doação de camisas para clubes e para a seleção brasileira – os donos na época eram apaixonados por futebol.

Camisas de Corinthians e Seleção da década de 1970 — Foto: Emilio Botta

Os primeiros clientes foram Corinthians, São Paulo e, posteriormente, praticamente todos os clubes da elite paulista. A criação das camisas era artesanal, com modelos rabiscados em uma folha de papel comum – muitas vezes na sede da empresa ou em jantares que sempre contavam com a presença de jogadores, na época interessados em melhorar o conforto dos uniformes.

– A CBD (atual CBF) pedia as roupas no papel de guardanapo. O Pelé escolheu a gola que ele queria, a de 70 foi escolhida por ele. O seu José Carlos, que é o cara que fez tudo acontecer, fazia os desenhos das cópias na própria mão e mandava para as gráficas. O Pelé participava dessas construções: "Gosto mais assim, gosto mais assado”. Era o momento deles, de amigos, lá na fábrica.

– O Pelé, em vida, só usou a Athleta profissionalmente, porque ele começou no Santos, passou pela seleção brasileira e terminou no Cosmos. E ele ainda comprava mil camisas por ano para poder dar de presente a todos os amigos que pediam, como o Snoop Dogg, vários papas, Madonna, a Rainha da Inglaterra e Will Smith. Essa camisa circulou entre grandes personalidades – conta Ricardo Tiwata, CEO da Athleta Brasil.

Paul McCartney recebe camisa da seleção brasileira autografada por Pelé — Foto: Repdroção


Peso da camisa: suor e chuva

A título de comparação, uma camisa de futebol fabricada entre as décadas de 1950 e 1970, em algodão e malha, pesava cerca de 400 gramas, podendo chegar a até dois quilos com o suor ou em jogos chuvosos. Atualmente, a mesma empresa entrega camisas pesando apenas 180 gramas e produzidas com material tecnológico, que não absorve mais o suor como os modelos antigos.

Rivellino com camisa do Corinthians que chegava a pesar até dois quilos molhada — Foto: Arquivo AE

Roberto Rivellino, ídolo do Corinthians e tricampeão mundial com a seleção brasileira em 1970, disse que era comum os jogadores pesarem as camisas tamanha era a curiosidade em saber o "peso" que era carregado por eles nos jogos.

– A gente sentia o peso delas, viu? Era totalmente diferente, porque às vezes a gente pegava o material e colocava até para pesar a camisa, o calção, uma meia e na hora dava um, dois quilos com chuva, pesava. Hoje a chuva bate e vai embora, ela não fica na camisa. Antigamente não, pelo contrário. Mas a gente nunca reclamou. Você nunca viu ninguém reclamar da camisa, que antigamente era pesada, era leve – conta Rivellino.

De uma geração mais recente, Romário admite que o avanço da tecnologia melhorou o desempenho dos jogadores com uma camisa mais leve e com menos peso:

– Eu tenho praticamente 60 anos, jogo desde os meus 20. Não peguei aquela época daquela camisa muito pesada. Mas, com certeza, a tecnologia avançou em todos os sentidos e também chegou nas marcas em relação aos uniformes, principalmente na camisa.

Forcedora que vestiu a Seleção em quatro Copas do Mundo faz uniformes do América-RJ, de Romário — Foto: REUTERS/Ricardo Moraes

Autor do lendário gol que tirou o Corinthians da seca de títulos em 1977, Basílio guarda a histórica camisa em casa e admite que ela ainda está praticamente intacta justamente pelo trabalho quase que de "alfaiataria" que os uniformes tinham antigamente.

– Hoje, há uma diferença muito grande, não só de material, né? Era uma camisa de algodão, ela era pesada. Era feita de uma maneira totalmente diferente, tanto é que aquela de 77 praticamente foi jogada e tenho guardada até hoje com o logotipo todinho – disse.


Mercado bilionário

A relação entre marcas e clubes era distinta da atual realidade, que movimenta contratos milionários e utiliza a imagem dos jogadores para a divulgação de produtos, por exemplo.

Inicialmente, nem a marca da empresa fabricante do material esportivo era exposta na camisa. Isso mudou apenas a partir da década de 1970, quando Pelé foi um dos pioneiros ao ser patrocinado.

Antigamente, era mais comum os jogadores terem o apoio de marcas de confecções do que os clubes, tornando o uniforme quase um produto individualizado, sem que todos vestissem necessariamente uma camisa fabricada pela mesma empresa.

Modelos de camisa usados pela Seleção de 1970 são considerados os mais bonitos — Foto: arte esporte

Em troca dos uniformes da mesma empresa, aos poucos os clubes passaram a autorizar a exposição das marcas na camisa e em placas de publicidade nos jogos, por exemplo. Mesmo assim, até meados da década seguinte, os contratos eram basicamente feitos com base em permuta de materiais.

Atualmente, a título de comparação, o Manchester City fechou recentemente um contrato com a Puma em que irá receber cerca de R$ 7,5 bilhões da marca alemã na próxima década. No Brasil, o Corinthians renovou com a Nike em um contrato que pode chegar a R$ 1,3 bilhão até 2035.

Tecido das camisas evolui com o tempo — Foto: Infoesporte

E foi justamente essa mudança comercial que quase colocou fim à primeira fornecedora de material esportivo do Brasil.

A chegada de empresas estrangeiras ao mercado nacional foi, aos poucos, tirando a Athleta do cenário, já que o pagamento pela exposição da marca e o fornecimento de material em grande escala passaram a ser inviáveis para a empresa, que possuía um modesto galpão na capital paulista.

Camisa comemorativa do Mirassol inspirada na Seleção Brasileira de 1970 — Foto: Pedro Zacchi

Entre 2004 e 2009, a empresa encerrou as atividades, retomando posteriormente apenas com foco na venda de modelos retrô e em outros esportes, como o futevôlei.

Um grupo japonês assumiu a gestão, passou a reposicionar a marca no mercado e, aos poucos, promoveu seu retorno ao futebol, quando vestiu o São Bento em 2022.

No último ano, a empresa relançou o modelo fabricado para a seleção brasileira na Copa de 1970, em parceria com o Mirassol – um dos clubes atualmente vestidos pela marca, que também fabrica os uniformes de: América-RJ, Santa Catarina, Pouso Alegre, Desportivo Brasil, Real Soccer e Monte Azul.

Com infomnações do GE



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