Brasileiro bebe menos cerveja, e indústria cria novos sabores


Lançamentos incluem versões zero, sem álcool, sem glúten e com vitaminas

Trabalhadores atuam na distribuição de cervejas de diferentes marcas na Zona Sul do Rio: a redução do consumo da bebida no país obriga cervejarias a investir em inovação — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg

Símbolo de celebração e presença quase obrigatória em catarses como o carnaval e a Copa do Mundo ou à mesa em casa, a cerveja vem perdendo espaço no cotidiano do brasileiro. Em 2025, de acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), o consumo da bebida recuou 5%, para 14,75 bilhões de litros, em um movimento que combina fatores financeiros, climáticos e comportamentais, sobretudo entre os mais jovens, que bebem cada vez menos. Se a notícia certamente é boa para a saúde em geral, para as cervejarias é um pesadelo do qual elas tentam acordar lançando novos produtos e sabores.

A alta nos preços da cerveja é a explicação mais direta para o freio: segundo o IBGE, a cerveja consumida dentro dos lares subiu 5,97% em 2025, a maior variação desde 2022, de acordo com o IPCA. Diante de um cenário desafiador para ampliar as vendas, as cervejarias estão acelerando a diversificação do portfólio, aprimorando suas versões sem álcool e criando opções de menor teor calórico.

Também fazem incursões em categorias adjacentes de bebidas, como drinks prontos, em busca de retomar o espaço perdido entre os consumidores num quadro de declínio do consumo de álcool.

Paulo Petroni, diretor-geral da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), admite que o setor vive um momento de preocupação com a queda no consumo. Segundo ele, é como se cada um dos 165 milhões de brasileiros com mais de 18 anos tivesse consumido uma lata a menos de cerveja por mês.

— A cerveja ainda é a bebida favorita dos brasileiros e é a expressão do carnaval, por exemplo. Hoje, 45% dos consumidores de bebidas declaram que consomem ao menos uma vez por mês. Mas o setor passa por esse momento de inflexão, fruto de diversas causas, como o clima, que não vem ajudando, o menor número de feriados e, claro, o fato de os jovens não estarem consumindo álcool como as gerações passadas — diz Petroni.


Renda apertada

Ele destaca ainda o componente da renda, comprimida pelos juros altos, o maior endividamento das famílias — mesmo com baixo desemprego — e os gastos com bets:

— O que sobra do orçamento acaba disputando espaço com novos gastos. Por isso, os fabricantes vêm apostando na diversificação, com variações. As versões sem álcool, por exemplo, cresceram mais de 500% em 2024 e tiveram alta de 100% no ano passado, mas ainda representam apenas 5% das vendas totais. As versões premium, que ganharam espaço, também crescem, mas ainda são minoria, respondendo por 10% a 15% do mercado.

Este ano, a expectativa é que a Copa do Mundo e o maior número de feriadões recuperem o consumo de cerveja. A CervBrasil prevê 15 bilhões de litros vendidos em 2026 — mais que no ano passado, mas abaixo dos 15,5 bilhões de 2024. Os desafios estruturais do setor, porém, persistem.

O menor interesse em álcool e cerveja não é exclusividade do Brasil. Pesquisa da consultoria Worldpanel by Numerator aponta que as ocasiões de consumo no lar caíram 19% no ano passado. Apreciar uma cerveja no fim de semana é um hábito que recuou 25%.

— O setor enfrenta um ajuste que não é apenas financeiro. Há uma redefinição do papel da cerveja na rotina. O desafio deixou de ser só volume e passou a ser relevância. O consumidor continua buscando prazer, mas com mais controle e menos frequência. É um prazer racionalizado — diz David Fiss, diretor sênior de Novos Negócios da Worldpanel by Numerator no Brasil.

No mês passado, esse cenário penoso para uma indústria que não costumava ver tempo ruim atingiu uma das maiores cervejarias do mundo. Em meio a uma troca de comando, a holandesa Heineken, dona ainda das marcas Amstel e Eisenbahn, anunciou um corte entre 5 mil e 6 mil postos de trabalho, cerca de 6% de seus 87 mil funcionários no mundo.

A medida é uma tentativa de enfrentar a queda global nas vendas. Nas Américas, o volume recuou 2,8% na comparação anual. Considerando todas as geografias, as vendas totais da Heineken caíram 1,2% em 2025.


‘Novas possibilidades’

Mesmo com marcas fortes, a cervejaria reagiu criando novos produtos. Um dos destaques foi o lançamento de uma variação da Heineken com toque aromático, no estilo spritz, chamada Lager Spritz, inspirada no coquetel italiano feito com espumante e água com gás. No Brasil, o produto será vendido inicialmente em Rio, São Paulo e Florianópolis, diz Elbert Beekman, gerente de Marketing da marca no Brasil:

Heineken Lager Spritz — Foto: Divulgação

— Mais do que lançar um novo rótulo, a ideia é propor novas possibilidades dentro do universo cervejeiro.

No novo cardápio para agradar quem busca alternativa à cerveja e está mais preocupado com a saúde, destacam-se a Heineken 0.0 e a Sol Zero, sem glúten e com vitaminas D e B.

Outra na lista é a Amstel Ultra, com 30% menos calorias. Em outra frente da marca, a Amstel Vibes apresenta bebidas prontas para beber (do segmento ready to drink) com aromas naturais de frutas.

A Heineken tem ainda a Better Drinks, que reúne as marcas Praya, Mamba Water e Baer Mate. Em um ano, a produção dessas opções cresceu quatro vezes. A distribuição comercial, que considera canais e pontos de venda, saltou de 10 mil em 2024 para mais de 60 mil no ano passado. O plano da companhia prevê o lançamento de mais marcas “além da cerveja” e bebidas funcionais.

A Ambev, líder de mercado no país, também viu o volume cair 4,5% no ano passado, com o clima mais frio impactando as vendas, segundo a empresa. “Condições climáticas adversas e um ambiente de consumo mais desafiador reduziram as ocasiões de consumo, especialmente nos canais ligados à socialização, pressionando os volumes da indústria”, destacou a Ambev em seu balanço do quarto trimestre de 2025. Apesar do recuo geral, a empresa destacou alta de 17% nas marcas premium e de 30% nas versões sem álcool.

Por isso, a dona de marcas como Skol, Brahma e Antarctica vem investindo na expansão de seus rótulos mais famosos. A aposta mais recente foi com a chegada da Skol Zero Zero, na versão sem álcool, açúcar e glúten.

— Criamos a Skol Zero Zero a partir de um olhar interno e externo, acompanhando a tendência crescente de consumidores que buscam escolhas mais equilibradas, inclusive na hora de apreciar uma cerveja — explica Dani Waks, vice-presidente de Marketing da Ambev.

De olho nos jovens mais antenados com a saúde, a lista traz ainda a Stella Pure Gold, que também se apresenta com menos calorias e é sem glúten, além da ampliação de Corona Cero e Budweiser 0.0%.


Bebida saborizada

Recentemente, a companhia lançou a Flying Fish, cerveja saborizada com toque de limão. A marca foi lançada na África do Sul em 2014 e chegou primeiro ao Sul do Brasil. No início deste ano, o rótulo foi lançado em São Paulo em uma loja temática da Oxxo, rede de pequenos mercados de bairro. Em paralelo, a Ambev investe em categorias além da cerveja.

Escalou a cantora Anitta como o rosto da Beats, sua marca de drinques prontos na lata que ganhou, neste ano, uma versão com sabor de frutas verdes batizada de Green Mix. Promete notas cítricas como kiwi, maçã verde e limão.

Beats lança versão com sabor de frutas verdes batizada de Green Mix — Foto: Divulgação

Outra aposta do segmento é a Brutal Fruit, que neste ano ganhou uma versão em lata de Ruby Apple em parceria com o sucesso da série “Bridgerton”, da Netflix.

Brutal Fruit ganhou uma versão em lata de Ruby Apple em parceria com o sucesso da série “Bridgerton”, da Netflix — Foto: Divulgação

— Com um consumidor cada vez mais plural, as empresas estão acelerando os lançamentos de forma a ampliar o alcance entre o público. Estão de olho nas vendas e querem evitar ficarem reféns de apenas um único tipo de produto tradicional. Nesse sentido, elas têm sido rápidas em rever suas rotas — avalia Leandro Martins, consultor do setor de bebidas.


Fonte: O Globo



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