Tragédia abalou o país há um mês e ainda trouxe uma discussão sobre o machismo agressivo que tentou jogar a culpa na mulher pela violência insana do homem
- Sarah Araújo, mãe dos dois meninos assassinados pelo próprio pai - Foto: Secom de Itumbiara/ReproduçãoUm mês após o crime que paralisou Itumbiara (GO) e estarreceu o Brasil, o silêncio de uma mãe deu lugar a um desabafo carregado de dor e perplexidade. Sarah Araújo, filha do prefeito Dione Araújo e mãe de Miguel (12 anos) e Benício (8 anos), falou publicamente pela primeira vez sobre a noite em que o então marido, o secretário municipal Thales Machado, atirou contra os próprios filhos enquanto eles dormiam, tirando a própria vida em seguida.
Em entrevista à uma emissora de TV local, Sarah descreveu o abismo emocional em que se encontra desde o dia 11 de fevereiro.
“Até hoje não consigo acreditar. É muito difícil de olhar as fotos deles, os vídeos, e eles não estarem aqui. Eu não me conformo, ainda mais na forma que foi”, declarou, evidenciando o trauma de uma violência que nasce dentro do seio familiar.
Premeditação e o falso afeto
A investigação da Polícia Civil de Goiás concluiu que o crime foi meticulosamente planejado. Horas antes de cometer a atrocidade, Thales publicou um vídeo com os filhos nas redes sociais com a legenda: “Que Deus abençoe sempre meus filhos, papai ama muito”. Para os investigadores, a postagem era uma armadilha narrativa: um simulacro de afeto que precedia a execução.
O alerta veio pouco depois, com um texto em tom de despedida. O prefeito Dione Araújo, em um instinto desesperado, foi o primeiro a chegar à cena, apenas 20 minutos após a publicação. Encontrou o genro morto e os netos em estado crítico. Miguel não resistiu àquela madrugada; Benício lutou por dois dias na UTI, mas faleceu no dia 13.
O machismo como lente da tragédia
Além do luto, a tragédia de Itumbiara acendeu um debate feroz sobre o machismo estrutural. Nas redes sociais e em setores da opinião pública, a violência insana de Thales chegou a ser relativizada por tentativas de transferir a culpa à mãe, uma tática comum em crimes de aniquilação familiar, onde a conduta da mulher é escrutinada para “justificar” o descontrole do homem.
Contra essa agressividade, uma rede de apoio nacional se formou. Um grupo de mais de 300 mulheres enviou rosas brancas a Sarah, gesto que ela recebeu com profunda gratidão. “Quero agradecer a todas elas. Eu sinto muito o carinho de todas por mim, a solidariedade, sinto as orações, sinto que está me sustentando o apoio de todas elas”, disse a mãe, que vê na união feminina o único amparo contra o julgamento e a dor.
Uma cidade em luto
Itumbiara segue em estado de choque. No último mês, missas e caminhadas brancas marcaram a despedida dos irmãos. O prefeito Dione Araújo, que agora tenta equilibrar a gestão pública com o papel de esteio familiar, classificou a perda como “irreparável” e pediu forças para continuar sua missão frente à cidade enquanto cuida dos seus.
A história de Miguel e Benício permanece como um lembrete brutal de que a violência doméstica e o machismo não escolhem classe social ou cargo político. No centro de tudo, resta uma mãe que, entre fotos e vídeos, busca forças para sobreviver ao inacreditável.

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