Enxaguante bucal faz mal ao coração? Veja o que dizem as pesquisas


Vídeos nas redes sociais afirmam que o uso de enxaguante bucal poderia aumentar a pressão arterial

Enxaguante bucal — Foto: Freepik

Vídeos nas redes sociais afirmam que o uso de enxaguante bucal poderia aumentar a pressão arterial e, por consequência, prejudicar a saúde do coração. A explicação apresentada nessas publicações é que o produto eliminaria bactérias “boas” da boca, essenciais para o sistema cardiovascular. A relação, porém, é mais complexa.

Estudos indicam que o ponto de atenção não está no uso rotineiro de enxaguantes comuns, mas no uso frequente e prolongado de fórmulas altamente antissépticas, especialmente as que contêm clorexidina, substância geralmente indicada por dentistas em situações específicas.

A boca abriga um microbioma diverso e equilibrado, formado por diferentes bactérias que ajudam a conter microrganismos associados a doenças, participam de funções metabólicas importantes e contribuem não apenas para a saúde bucal, mas para o organismo como um todo.

Entre essas funções, uma das mais relevantes é a conversão do nitrato presente na alimentação, sobretudo em vegetais de folhas verdes, em nitrito. Após ser engolido, esse nitrito é transformado pelo organismo em óxido nítrico, molécula fundamental para a dilatação dos vasos sanguíneos e para a regulação da pressão arterial.

Foi justamente esse mecanismo que chamou a atenção de pesquisadores liderados por Nathan Bryan, PhD, da Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos. Em um estudo com 26 adultos saudáveis, a equipe observou que o uso de enxaguante com clorexidina duas vezes ao dia durante uma semana alterou a microbiota oral, reduziu a atividade de bactérias ligadas à produção de óxido nítrico e esteve associado a aumento da pressão sistólica.

Achados mais recentes reforçam a mesma linha. Um estudo publicado no Journal of Oral Microbiology comparou a clorexidina a um enxaguante à base de própolis em 45 voluntários saudáveis. Os pesquisadores concluíram que a clorexidina prejudicou significativamente a atividade das bactérias produtoras de nitrito, enquanto a própolis teve impacto bem menor e não mostrou o mesmo efeito sobre esse sistema.

A maior parte das pesquisas sobre pressão arterial e enxaguante bucal foi feita com clorexidina, um antisséptico potente, prescrito apenas por curtos períodos em casos como gengivite, pós-operatório odontológico ou infecções. Por sua ação antimicrobiana intensa, ela reduz importantemente as bactérias responsáveis pela conversão de nitrato em nitrito.

Por isso, os resultados científicos não podem ser automaticamente extrapolados para enxaguantes suaves de uso diário, como os que contêm flúor, sendo vendidos livremente em farmácias. Em outras palavras: não há evidências robustas de que aquele enxaguante comum utilizado na rotina tenha o mesmo impacto cardiovascular observado nos estudos com clorexidina.

O álcool presente em algumas fórmulas também pode interferir no microbioma oral, mas, até o momento, ainda faltam pesquisas específicas que avaliem diretamente sua relação com a saúde cardiovascular.

Com informações do O Globo




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