O ponto central da inteligência artificial na saúde não está na tecnologia em si, mas em como escolhemos aplicá-la
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Americo Buaiz Neto e Simone Duarte. Foto: Divulgação/Rede Vitória e Acervo Pessoal |
*Artigo escrito por Americo Buaiz Neto e Simone Duarte.
A inteligência artificial (IA) veio para transformar e reposicionar diversos mercados. Disso, há poucas dúvidas. Estima-se que o mercado global de IA na saúde movimentará bilhões de dólares até 2030. O ponto central, porém, não está na tecnologia em si, mas em como escolhemos aplicá-la.
Quando pensamos em IA na saúde, é comum associá-la à frieza, à substituição de funções humanas e até à perda de propósito profissional. Mas talvez a pergunta correta seja outra: a tecnologia está desumanizando o cuidado ou apenas tornando mais visíveis problemas antigos?
Quando o sistema afasta o profissional do paciente
Para entender essa questão de maneira concreta, vale olhar tanto para a atenção primária, porta de entrada do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS), como também para os prontos-socorros. São nesses ambientes que se revela uma das maiores dores da saúde contemporânea: a sensação de descuido no atendimento.
Na prática clínica, grande parte do tempo do profissional não é dedicada ao paciente, mas ao sistema: preenchimento de prontuários softwares pouco integrados autorizações administrativas protocolos operacionais exigências regulatórias
Em muitos contextos, essas tarefas podem consumir até 40% do tempo médico. Não é raro que, enquanto o paciente fala, o profissional esteja digitando, respondendo alertas ou tentando cumprir burocracias. O custo disso é silencioso: profissionais cansados, frustrados e distantes da medicina que gostariam de exercer.
Outro ponto negativo é quando pareceres éticos apontam como referência 15 a 20 minutos por paciente, que já representa desafio relevante.
Na realidade de alta demanda, esse tempo frequentemente cai para 7 a 10 minutos, não apenas por limitações assistenciais, mas também por modelos de operação que buscam maximizar produtividade e eficiência econômica, concentrando grande volume de atendimentos em janelas incompatíveis com a complexidade do cuidado.
O resultado acaba sendo previsível: o paciente sente falta de atenção o profissional sente falta de tempo o sistema perde qualidade
Onde a IA pode fazer diferença agora
É justamente nesse ponto que a inteligência artificial não representa uma ameaça, mas sim uma correção de rota. Em vez de substituir o profissional da saúde, a IA o ajuda a assumir parte da carga operacional que hoje consome tempo e energia de quem deveria estar focado no paciente.
Isso ocorre por meio de ações como transcrição automática de consultas, geração de resumos clínicos e otimização de agendas e fluxos assistenciais, nos quais impactos positivos já vêm se tornando realidade.
O limite da tecnologia é ético
Esse ponto é fundamental. A inteligência artificial não substitui a decisão clínica, não assume responsabilidade e não compreende plenamente o contexto humano. Ela apoia.
O profissional da saúde não se encontra livre de seus deveres éticos-profissionais e ignorá-los seria imprudência. Porém, travar uma disputa contra a tecnologia também seria um erro estratégico.
Mesmo no início da sua trajetória, a inteligência artificial já avança em ritmo exponencial e, em pouco tempo, tende a ampliar capacidades, reduzir custos e se integrar de forma crescente às rotinas assistenciais.
O caminho, portanto, não é resistir à IA, e sim aprender a direcioná-la com responsabilidade, critérios claros e foco no cuidado humano.
Implementar mal é pior do que não implementar
Também existe o risco da má implementação, podendo resultar no aumento da carga de trabalho, fragmentação de processos, resistência da equipe e até comprometimento da segurança assistencial.
Por isso, a adoção de IA exige: mudança cultural institucional integração com prontuários treinamento das equipes revisão de fluxos
Por fim
A inteligência artificial não é, por natureza, nem solução nem problema. Ela amplia aquilo que recebe.
Se aplicada apenas para aumentar volume e reduzir custo, ampliará distorções. Se aplicada para devolver tempo e qualidade ao cuidado, poderá humanizar a saúde em escala jamais vista.
O diferencial será fazer melhor, e não somente mais.
Talvez a pergunta não seja se a IA vai substituir pessoas. A pergunta é se teremos inteligência suficiente para usá-la a serviço do cuidado.
Porque, no fim, permanece uma verdade que nenhuma tecnologia relativiza: cada paciente merece o melhor cuidado possível.
Com ciência.
Com presença.
E com humanidade.
Americo Buaiz Neto é vice-presidente da Rede Vitória e vice-presidente do hub de IA e processos do Grupo Buaiz (HUGB).
Simone Apolônio Duarte é mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local, com especializações em Gestão em Saúde (FGV), Docência Digital (Einstein), Simulação Avançada (IPEMED) e Telemedicina (EMESCAM). diretora de Educação da SOBRASSIM, gestora do Instituto Santa Rita e coordenadora de centro da American Heart Association.
Com informações de Folha Vitória



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