Procedimento é o primeiro a ser realizado com mais de um órgão ao mesmo tempo e sem sinais de rejeição nas primeiras 24h
Fazendas em países como EUA e Brasil têm criado porcos geneticamente modificados para a extração de seus órgãos e uso em xenotransplantes; entenda técnica — Foto: PxHereUm homem de 53 anos, clinicamente morto, se tornou a primeira pessoa a receber dois rins e um fígado inteiro de um porco modificado geneticamente.Trata-se de uma operação inédita, já que foi a primeira vez que o procedimento era realizado com rins e fígado de porcos. Os órgãos do paciente, por sua vez, foram mantidos em funcionamento por quase cinco dias com o consentimento da família. Durante as primeiras 24 horas desse período, como publicado nesta sexta-feira (29) na revista Cell Press, o organismo não demonstrou sinais de rejeição.
Antes da operação, os órgãos do porco tiveram o seu genoma modificado em seis partes. Entre as alterações, está a inclusão de três genes humanos para reduzir o risco de problemas de coagulação sanguínea e a remoção de três genes suínos com o objetivo de evitar a rejeição dos rins e do fígado pelo organismo.
Mas o experimento só foi realizado porque o homem, não identificado pela imprensa, já tinha tido a necrose do seu cérebro confirmada pelos médicos. Tratava-se de um paciente com doença renal crônica e hemorragia cerebral grave, o que o levou ao óbito.
As primeiras 24 horas após o procedimento podem ser consideradas um sucesso, já que os órgãos não foram rejeitados pelo corpo. Um dos momentos de destaque ocorreu após 19 horas do transplante, quando o fígado de porco começou a secretar bile e apresentou sinais de funcionamento normal. Com os dois rins, os níveis dos produtos residuais creatinina e ureia do homem – que estavam elevados devido à sua doença – retornaram ao normal, o que sugere que eles também estavam funcionando bem.
O fígado do homem que recebeu o transplante dos órgãos suínos estava saudável e, por isso, foi doado para outra pessoa — Foto: Rawpixel
Mas ao alcançar a marca de 36 horas, o quadro mudou. A equipe médica começou a notar sinais precoces de rejeição, como a substituição gradual das células de porco no fígado por células humanas e o aparecimento de pequenas áreas de necrose tecidual e coagulação sanguínea no fígado suíno.
Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores – e que ainda tem sido estudada – é que a rejeição decorreu da presença de níveis elevados da célula imunológica S100A12 + nos órgãos suínos. Para eles, o papel dessa estrutura na inflamação se desenrolou a partir do momento em que os medicamentos para reduzir a rejeição dos órgãos começaram a ser reconhecida como um alvo.
Transplante animal
Os procedimentos cirúrgicos que transferem órgãos, tecidos ou células de uma espécie animal para um ser humano são chamados xenotransplantes. A maioria dos procedimentos desse tipo que já ocorreram com porcos, no entanto, envolveu o transplante de um único órgão.
Isso ocorria, principalmente, por questões de cautela médica. Afinal, transferir múltiplos órgãos exige uma preparação e uma cirurgia mais complexa, já que os procedimentos levam mais tempo, aumentando o risco de complicações, e as pessoas que precisam de múltiplos transplantes geralmente estão mais gravemente doentes.
No entanto, essas questões não foram impeditivas para os pesquisadores, que deram continuidade aos seus testes. China e Estados Unidos, por exemplo, têm dado andamento em ensaios clínicos nacionais, o que garantiu que um pequeno número de pessoas pudesse receber órgãos de porco, incluindo corações, rins, fígados parciais e pulmões.
Outro destaque é em relação à continuidade dos xenotransplantes. Wayne Hawthorne, da Universidade de Sydney (Austrália) compartilhou, em comunicado, que os xenotransplantes muiltiorgânicos são mais possíveis de serem utilizados. Esses já são realizados com órgãos humanos, mas há escassez de órgãos doadores, razão pela qual equipes de pesquisa do mundo todo (incluindo do Brasil, que é referência nessa abordagem) investigam o uso de rins de porco.
Com informaçõess da Revista Galileu

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