A história de Anita Antonia. Ela cuidava do filho de dia e andava atrás de lixeiras à noite. Aos 73 anos, com problema na coluna e na perna, chegava exausta em casa.
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Catadora de recicláveis ganha ajuda para retirar toneladas de lixo que acumulou em casa durante 20 anos — Foto: Fantástico/ Reprodução
A história da catadora de recicláveis Anita Antonia. Durante 20 anos, ela acumulou toneladas de lixo em casa. Anita era vista como uma solução da rua. Moradores contaram que ela varria a calçada onde lixeiros nem pisavam e retirava o lixo de algumas casas.
"Ela pega, ela vende, ela transforma isso em dinheiro. A gente achou que era uma coisa normal. Mas, aos poucos, a gente foi percebendo que aquilo ali foi... Ela foi só somando, acumulando", conta uma vizinha.
Mas um dia alguém olhou mais de perto para Anita e viu que ela precisava de ajuda. Guilherme Gomes é um influenciador digital que faz faxina de graça para acumuladores compulsivos. Ele compartilha as histórias das pessoas na internet. Guilherme precisou de ajuda para organizar o caos. A equipe dele chamou a Defesa Civil.
"O acúmulo de coisas deve gerar uma impossibilidade de utilizar um determinado cômodo da casa, por exemplo. E, também, para qualquer diagnóstico psiquiátrico, a gente tem que estabelecer que existe aí prejuízo na vida da pessoa", diz o psiquiatra Daniel Costa, pesquisador do Instituto de Psiquiatria do HC/USP.
O sofrimento, o risco à segurança ou o isolamento são parte do quadro, geralmente acompanhado de depressão e a ansiedade. O psiquiatra e pesquisador da USP Daniel Costa explica que há uma apego aos objetos - as pessoas sentem que podem precisar dele um dia.
"Alguns objetos adquirem um valor sentimental para a pessoa. Então, portanto, se desfazer daquilo é muito sofrido. É o equivalente ali a se desfazer de algo que tem um valor material muito importante, por exemplo”, explica Daniel Costa.
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Catadora de recicláveis ganha ajuda para retirar toneladas de lixo que acumulou em casa durante 20 anos — Foto: Fantástico/ Reprodução
Infância
Maringá, no Paraná: Anita Antonia não teve pai, mas recebia o carinho da mãe quando terminava o serviço doméstico. A mulher hoje rodeada de lixo sabia cuidar bem de casa. Ela foi para São Paulo trabalhar como doméstica.
Anita se apaixonou e deixou um pedreiro morar na casa que ela tinha comprado. Os dois tiveram um filho que precisa de cuidados especiais. Anita parou de trabalhar para tomar conta dele. O marido prometeu ir ampliando a casa. Ela disse que comprou os veículos que a faxina encontrou asfixiados pelos resíduos. O marido usava os carros antigos nas empreitadas. A expectativa da equipe da faxina era que Anita pudesse vender os carros a colecionadores e conseguir uma renda para o recomeço. Mas esses e outros três carros não seriam raridade.
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Catadora de recicláveis ganha ajuda para retirar toneladas de lixo que acumulou em casa durante 20 anos — Foto: Fantástico/ Reprodução
Anita narra uma rotina de gritos do marido, que acabou abandonando a casa. Ela se viu mãe solo e desempregada. Resolveu trabalhar como catadora e começou a guardar o resíduo em casa com medo de roubarem o que juntou. Ela acumulou objetos que não teria condições de comprar - todos quebrados, mas não sem valor. Os catadores conhecem o mercado: os recicláveis mais valiosos são metais, como cobre, bronze, zinco. Esses materiais aparecem em computador, cabos, panelas.
"Às vezes as pessoas falam assim: 'Ah, é lixo'. Mas não é. O lixo é aquele que não presta para nada”, diz Anita Antonia.
A triagem começa pelos metais, passa pelo papelão e PET, deixando para trás materiais que ocupam espaço e dão pouco retorno. Mas Anita falhava na separação. Ela cuidava do filho de dia e andava atrás de lixeiras à noite. Aos 73 anos, com problema na coluna e em uma perna, ela chegava exausta - o fardo era também mental.
A catadora via os resíduos como poupança. Mas o bairro enxergava o lixão particular como um lugar de doença e infestação. Em três dias, essa reserva financeira, o cheiro putrefato, os animais mortos foram embora.
"As pessoas têm esse pré-julgamento: 'são pessoas porcas, são pessoas desleixadas, como é que uma pessoa vive nesse estado?' E falo para essas pessoas: a depressão não é frescura”, diz o influenciador digital Guilherme Gomes.
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Catadora de recicláveis ganha ajuda para retirar toneladas de lixo que acumulou em casa durante 20 anos — Foto: Fantástico/ Reprodução
Dezenas de voluntários se revezaram para tirar rápido a Anita de um lugar inóspito. Ela queria ter ficado com o álbum de bebê do filho, mas a equipe disse que todos os pertences estavam destruídos.
"A gente pegava nos objetos, roupas se desfaziam. Pelo tempo que isso estava, mais de 20 anos ali prensado”, conta Guilherme Gomes.
A vizinhança comemorou a faxina. Mas a casa sem lixo revelava uma mulher sozinha diante de uma pilha de problemas. Anita se deparou com o vazio, com o casamento interrompido, com a casa inacabada. A família está em um hotel social, com atividade física, cultural e religiosa.Não há remédio para lidar só com acumulação compulsiva.
"Esse é um problema crônico, que tende à recorrência. Então, é uma pessoa que precisa estar constantemente ali em acompanhamento de profissionais de saúde”, afirma o psiquiatra Daniel Costa.
Com informações do G1

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