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Após tratamento inovador, a mulher com catatonia que acordou após 20 anos, tem alta, recupera a memória e é considerada milagre da medicina. - Foto: José A. Alvarado Jr./ The Washington Post |
A mulher com catatonia, que acordou depois de 20 anos em coma, em 2023, está viva, recuperou totalmente a sua memória de longo prazo, reconhece o irmão, a cunhada, os sobrinhos e o pai, conversa, interage e até brinca com eles durante as visitas presenciais e chamadas de vídeo.
April Burrell, hoje com 44 anos, é considerada um milagre da medicina e vive atualmente em um centro de reabilitação nos Estados Unidos, onde recebe os cuidados necessários após ter recebido alta do hospital psiquiátrico de segurança máxima em 2020.
O quadro de April, continua sendo acompanhado de perto pela comunidade científica mundial, servindo de base para a triagem de centenas de outros pacientes psiquiátricos crônicos.
O que ela teve
A equipe médica e a família seguem otimistas da melhora dela com o protocolo para o lúpus neuropsiquiátrico que vem recebendo.
Ela ainda é considerada clinicamente frágil e passa por um lento processo de reabilitação física e cognitiva para aprender a lidar com o mundo atual, já que perdeu toda a sua juventude e o início da vida adulta internada.
Relatórios médicos divulgados pelo Dr. Sander Markx, diretor de psiquiatria de precisão na Universidade Columbia, mostram April teve recaída devido à falta de tratamentos de manutenção adequados na clínica onde estava, mas agora está evoluindo novamente.
Como despertou
O despertar dela foi possível graças a um tratamento inédito aplicado a pacientes psiquiátricos. A terapia consiste em associar remédios para doença mental e outros específicos para lúpus, doença autoimune.
April Burrel, moradora de Maryland, nos Estados Unidos, era uma jovem que estudava Contabilidade na universidade, ajudava o pai, militar do Exército, e convivia em harmonia com os sete irmãos em família. Porém, aos 21 anos, teve um surto psicótico e ficou paralisada.
“Ela apenas olhava e ficava parada lá […] Ela não tomava banho, não saía, não sorria. A equipe de enfermagem tinha que manobrá-la fisicamente”, contou o médico Sander Markx.
Esquizofrenia e catatonia
Diagnosticada com esquizofrenia, April foi internada e permaneceu numa instituição psiquiátrica, mantendo um quadro de catatonia. Depois foi descoberto que ela tinha lúpus, doença autoimune, que havia atingido o cérebro.
A primeira evidência conclusiva estava no exame de sangue: mostrou que o sistema imunológico estava produzindo grandes quantidades e tipos de anticorpos que estavam atacando seu corpo.
As varreduras cerebrais mostraram evidências de que os anticorpos estavam danificando os lobos temporais de seu cérebro, áreas implicadas na esquizofrenia e na psicose.
Como hipótese, a equipe levantou a possibilidade de esses anticorpos terem alterado os receptores que ligam o glutamato, um importante neurotransmissor, interrompendo a forma como os neurônios podem enviar sinais uns aos outros.
Embora April tivesse todos os sinais clínicos de esquizofrenia, a equipe acreditava que a causa subjacente era o lúpus, um distúrbio autoimune complexo no qual o sistema imunológico se volta contra o próprio corpo, produzindo muitos anticorpos que atacam a pele, as articulações, os rins ou outros órgãos.
A suspeita era que o lúpus parecia estar afetando apenas seu cérebro. “Não sabemos quantas dessas pessoas estão por aí”, disse Sander. “Mas temos uma pessoa sentada na nossa frente e temos que ajudá-la.”
O tratamento
A equipe médica trabalhou para neutralizar o sistema imunológico enfurecido de April e iniciou um tratamento intensivo de imunoterapia para lúpus psiquiátrico.
Durante seis meses, April recebia “pulsos” curtos, mas poderosos, de esteróides intravenosos por cinco dias, além de uma dose única de ciclofosfamida, uma droga imunossupressora pesada normalmente usada em quimioterapia e emprestada do campo da oncologia.
Ela também foi tratada com rituximab, um medicamento inicialmente desenvolvido para linfoma.
O tratamento é cansativo, exigindo uma pausa de um mês entre cada uma das seis rodadas para permitir que o sistema imunológico se recupere. Mas April começou a dar sinais de melhora quase imediatamente.
A emoção da família
Guy Burrel, irmã de April ficou emocionada quando ela se lembrou da casa da família e de alguns detalhes.
“Ela relembrou sua casa de infância em Baltimore, as notas que tirou na escola, sendo dama de honra no casamento do meu irmão”, disse Guy. “Ela conhecia todos nós, lembrava-se de coisas diferentes de quando era criança.”
Quando o pai de April apareceu na videochamada, ela comentou: “Oh, você perdeu o cabelo”. A família sentiu como se tivesse presenciado um milagre.
“Foi como se ela tivesse voltado para casa”, disse Sander. “Nunca pensamos que isso fosse possível.”
Ajudar em outros casos
Pesquisadores que trabalham com o sistema de saúde mental do estado de Nova York identificaram cerca de 200 pacientes com doenças autoimunes, alguns internados há anos, que podem ser ajudados pela descoberta.
A pesquisa ganhou a adesão de cientistas na Alemanha e Grã-Bretanha que também conduzem estudos semelhantes, identificando processos autoimunes e inflamatórios que podem ser mais comuns em pacientes com uma variedade de síndromes psiquiátricas.
Para os cientistas, as pesquisas e os tratamentos em curso devem ajudar a um grupo de pacientes.
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April Burrel, a mulher com catatonia acordou 20 anos. À esquerda: April aos 19 anos. À direita em abril de 2022 durante uma visita familiar após o tratamento. – Foto/ Ilustração: Chelsea Conrad/The Washington Post; Foto de família; Tim Sorel |
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O médico Sander Markx que ajudou a mulher com catatonia a acordar após 20 anos – Foto: José A. Alvarado Jr. / The Washington Post |
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A mulher com catatonia acordou após 20 anos e desenhou esses relógios, que mostram sua evolução cognitiva com o tratamento – Fotos: Sander Markx Com informações de Só Noticia Boa |





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