O que aconteceu com Deolane em um mês? Veja os desdobramentos que levaram a influenciadora a virar ré por esquema ligado ao PCC



Um mês após ser presa na Operação Vernix, Deolane acumula quatro desdobramentos judiciais no caso: prisão, indiciamento, denúncia e o recebimento da ação penal que a tornou ré. Atualmente, ela permanece presa em Tupi Paulista (SP).

Operação mira transportadora, família de Marcola e influenciadora Deolane Bezerra — Foto: Reprodução


A Justiça tornou a influenciadora Deolane Bezerra ré por lavagem de dinheiro e organização criminosa ligada ao PCC no domingo (16). A denúncia foi aceita em Presidente Venceslau (SP).

Deolane foi presa no dia 21 de maio, em Barueri, durante a Operação Vérnix. Ela foi transferida para a Penitenciária Feminina de Tupi Paulista no dia seguinte.

A influenciadora preferiu ficar em silêncio em depoimento no dia 27 de maio. Ela foi indiciada dois dias depois por lavagem de dinheiro e organização criminosa.

O Ministério Público denunciou Deolane na segunda-feira (10). A Justiça negou o pedido de prisão domiciliar feito pela defesa.

Da ostentação nas redes sociais a uma cela de nove metros quadrados no interior de São Paulo. A prisão de Deolane Bezerra na Operação Vérnix completa um mês neste domingo (21).

A investigação da Polícia Civil de Presidente Venceslau (SP) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) alterou a rotina da advogada e influenciadora.

Em 30 dias, o processo avançou pelas etapas de prisão, indiciamento, denúncia e aceitação da ação penal, tornando-a ré por lavagem de dinheiro e organização criminosa ligada à cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Abaixo,reconstrói a cronologia dos fatos, detalha a rotina da influenciadora no presídio e explica o esquema bilionário que a colocou no mesmo processo penal que Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola.


Justiça aceita denúncia contra a influenciadora digital Deolane Bezerra

21 de maio: Deolane é presa na Operação Vérnix

A Polícia Civil e o Ministério Público do Estado de São Paulo deflagraram a Operação Vérnix, voltada à apuração dos crimes de organização criminosa e lavagem de capitais, que envolve uma transportadora localizada no Oeste Paulista.

A ação ocorreu por meio da Central de Polícia Judiciária de Presidente Venceslau e pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) – Núcleo de Presidente Prudente.

Em 21 de maio deste ano, foram cumpridos mandados de busca e apreensão na casa de Deolane Bezerra, em Barueri, na Grande SP, onde ela foi presa. Everton de Souza (Player) também foi preso, indicado como operador financeiro da organização.

As investigações apontaram movimentação financeira bilionária ligada à facção criminosa, envolvendo uma transportadora investigada por ligação com o PCC, que movimentou cerca de R$ 20 milhões em Presidente Venceslau.


22 de maio: transferência para Tupi Paulista

Após a prisão, Deolane passou a noite na Penitenciária Feminina de Santana, na Zona Norte de São Paulo. No dia 22 de maio deste ano, ela foi transferida para a Penitenciária Feminina de Tupi Paulista (SP), onde a influenciadora está desde então.

Deolane está em uma cela especial de 9 metros quadrados e divide espaço com outra advogada na cadeia, com acesso semanal a batom, esmalte e chapinha.

A influenciadora também tem acesso à cela individual equipada com cama, mesa, cadeira, banheiro com chuveiro elétrico, ventilador, televisão, água gelada e garrafa térmica, além de solário para banho de sol diário.

A rotina dea Deolane como detenta começa às 7h com o café da manhã e vai até às 18h, quando volta para a cela após o jantar, às 16h30.


27 de maio: depoimento de Deolane

A influenciadora Deolane Bezerra preferiu permanecer em silêncio durante depoimento à Polícia Civil no interior paulista no dia 27 de maio deste ano, conforme apurado pela TV TEM.

Segundo a Polícia Civil, a influenciadora participou da oitiva acompanhada por uma das irmãs, que é advogada. No entanto, por orientação do advogado Aury Lopes Jr., Deolane optou por permanecer em silêncio durante o interrogatório.

A polícia havia destacado que a oitiva da investigada, no caso, o depoimento, era uma das etapas finais da investigação.


29 de maio: Deolane é indiciada

Em 29 de maio deste ano, o g1 noticiou que Deolane Bezerra foi indiciada pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro pela Polícia Civil de Presidente Venceslau, após as autoridades concluírem o relatório do inquérito da Operação Vérnix.

O documento detalha o resultado das investigações após o cumprimento das medidas judiciais da fase que levou à prisão da influenciadora e de outros investigados em 21 de maio.

Este documento traz a análise preliminar dos materiais recolhidos nas buscas e fundamenta a nova fase do processo, que inclui os novos indiciamentos e pedidos de sequestro de bens.


Além da influenciadora, a Polícia Civil indiciou outras seis pessoas no relatório complementar, sendo:

Alejandro Herbas Camacho Júnior (irmão de Marcola);
Eduardo Affonso Rodrigues, apontado como contador do grupo;
Everton de Souza (Player);
Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho (sobrinho de Marcola);
Marco Willians Herbas Camacho (Marcola), apontado como chefe da facção criminosa;
Paloma Sanches Herbas Camacho (sobrinha de Marcola).


Nessa fase, com base nas novas provas, a Polícia Civil formalizou os indiciamentos por lavagem de dinheiro e organização criminosa, e apresentou representações complementares ao Poder Judiciário.

Entre os pedidos feitos pela polícia à Justiça estavam o sequestro cautelar dos veículos apreendidos durante a operação, a ampliação de bloqueios patrimoniais e a custódia judicial de joias e relógios localizados nas diligências.


10 de junho: Deolane é denunciada

Quase 20 dias após a prisão da influenciadora e advogada, o Ministério Público denunciou Deolane Bezerra à Justiça, em 10 de junho. Além de Deolane, outras cinco pessoas foram denunciadas, entre elas Marcola e parentes, com exceção de Eduardo Affonso Rodrigues.

Além disso, a Justiça negou o pedido de Deolane Bezerra para transferência à Sala de Estado-Maior, ou para que a prisão preventiva fosse substituída por prisão domiciliar, e manteve a prisão preventiva em Tupi Paulista.

O Ministério Público reforçou que o pedido de prisão domiciliar não é oferecido nos casos de organização criminosa que opera mediante violência.


16 de junho: Deolane vira ré

Na atualização mais recente do caso, a Justiça de Presidente Venceslau aceitou, em 16 de junho, a denúncia do Ministério Público e converteu a advogada Deolane Bezerra em ré, por organização criminosa e lavagem de dinheiro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).

🔎 Ao aceitar a denúncia do Ministério Público, a Justiça torna a pessoa ré e dá início à ação penal. Isso não significa que ela foi condenada. A partir dessa decisão, o processo segue para a fase de produção de provas e apresentação da defesa, até que a Justiça decida se o acusado é culpado ou inocente.

Além dela, também se tornaram réus Marco Willian Herbas Camacho, o Marcola, Paloma Sanches Herbas Camacho, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior e Everton de Souza.

Nesta parte do processo, Eduardo Affonso Rodrigues não foi denunciado. O Ministério Público pediu o desmembramento da investigação em relação a ele, e o juiz acolheu o pedido.

Diante disso, o juiz determinou a abertura de um novo inquérito policial para aprofundar as investigações envolvendo Eduardo. A medida foi adotada porque ainda há laudos periciais pendentes, principalmente de celulares apreendidos, além de outras diligências que precisam ser concluídas.

‘Para Deo... Beze...’: mensagens e comprovantes indicam pagamentos para Deolane em esquema do PCC, diz polícia — Foto: Reprodução


Fases da investigação

A Operação Vérnix, do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil, teve origem em uma investigação que começou há sete anos e contou com quatro fases, as quais revelaram um esquema estruturado de lavagem de dinheiro envolvendo uma empresa de fachada controlada pela cúpula da facção.


Fase 01

A primeira etapa envolve a descoberta de anotações na Penitenciária II de Presidente Venceslau, em 2019, indicando tráfico, ligação com chefes do PCC e planos de atentados. Os bilhetes e manuscritos estavam em posse de dois presos.


Fase 02

Depois da análise do material apreendido, os investigadores chegaram a uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau, a poucos metros do presídio de segurança máxima no oeste paulista, que seria usada para lavar dinheiro, com movimentações milionárias incompatíveis com s renda declarada.


Fase 03

Foi na fase 03 que a Operação Vérnix ocorreu. A partir da investigação sobre o esquema de lavagem de dinheiro por meio da transportadora, a polícia encontrou um aparelho celular oculto com um dos operadores do PCC.

A análise de mensagens revelou controle direto do esquema pelos chefes do PCC, com divisão de lucros e uso de intermediários, entre eles Deolane Bezerra e Everton de Souza.


Fase 04

Os relatórios financeiros trouxeram a confirmação técnica da lavagem de dinheiro, com uso de empresas de fachada, depósitos fracionados e ocultação de patrimônio.


Quem está preso ou foragido atualmente?

Até a última atualização desta reportagem, das seis pessoas consideradas rés, quatro estavam presas e duas eram consideradas foragidas no exterior. Veja abaixo:

Marco Willians Herbas Camacho ("Marcola", "Narigudo", "Ciro"), preso desde 1999, já passou por diversas unidades prisionais e, atualmente, está na Penitenciária Federal de Brasília desde 2022.

Ele foi condenado a 330 anos por diversos crimes e é apontado como líder máximo do Primeiro Comando da Capital (PCC), além de ser considerado proprietário oculto da Transportadora Lado a Lado, em conjunto com o irmão Alejandro.

Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior ("Gordão") está em um presídio federal de segurança máxima desde fevereiro de 2019 e, atualmente, está preso na Penitenciária Federal de Brasília. Ele é irmão de Marco Willians e co-líder do esquema.

Everton De Sousa ("Player", "Temer") foi preso na Operação Vérnix em 21 de maio deste ano e, atualmente, está no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Caiuá. Conforme a investigação, ele atuava como operador financeiro de Alejandro, constituindo o elo entre a liderança do PCC e o gestor da empresa de fachada.

Deolane Bezerra Santos, presa na Operação Vénix em 21 de maio deste ano, está atualmente na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, por lavagem de dinheiro e organização criminosa ligada ao PCC.

A investigação apontou que ela atuava como receptora de valores ilícitos provenientes da Transportadora Lado a Lado, operada em benefício do PCC. A conta no banco dela foi utilizada para o recebimento de depósitos fracionados oriundos diretamente da empresa de fachada, a mando de Everton, agente financeiro de Alejandro.

Além disso, a influenciadora tinha planos de reestruturar suas empresas e enviar recursos para fundos em Dubai, localidade conhecida por abrigar as chamadas “shell companies” (empresas de fachada), usadas para facilitar a lavagem internacional de dinheiro da facção.

Paloma Sanches Herbas Camacho, filha de Alejandro e sobrinha de Marcola, atualmente, está foragida, com informações de que se encontra no exterior. Atuava como mensageira e intermediária de seu pai na gestão dos negócios ilícitos operados pela Transportadora Lado a Lado.

Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, filho de Alejandro e sobrinho de Marcola, atualmente, está foragido no exterior. Ele integrou o núcleo financeiro da organização criminosa, sendo indicado por sua irmã Paloma como receptor de parte dos repasses provenientes da transportadora.


E o que acontece agora?

O advogado criminalista Alisson Oliveira de Sousa Cruz explicou o que acontece após uma pessoa se tornar ré, de maneira geral, a partir do princípio da presunção da inocência, segundo o qual “ninguém pode ser considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória.”

O princípio da presunção da inocência está previsto no artigo 5º, inciso LVII, da Constituição Federal de 1988 no Brasil e é exemplificado por: “Todos são inocentes até que se prove o contrário”.

No caso de Deolane, Marcola e dos demais envolvidos que se tornaram réus, agora é o momento em que eles são intimados para apresentar a resposta à acusação, conforme previsto na decisão da Justiça de Presidente Venceslau.

A influenciadora digital tem o prazo de 10 dias para apresentar uma resposta escrita à acusação. “Após essa resposta à acusação, é marcada a audiência e, em seguida, o advogado vai fazer a defesa final, chamada de alegações finais, a partir dos requerimentos defensivos e acusatórios.”

“Depois disso, se ela for condenada, o processo vai para apelação, em que o Tribunal de São Paulo vai averiguar se vai reformar a pena, se vai continuar com a eventual absolvição, após o juiz sentenciar o caso”, afirma o advogado Alisson.

O especialista não está na defesa do caso da Deolane ou da família de Marcola e, por isso, não teve acesso aos autos dos processos. No entanto, o advogado descreve como o procedimento jurídico funciona na prática.

“Posterior a isso, se a defesa ou o promotor ficarem inconformados [com a sentença], ainda dá para subir o recurso, chama recurso especial no STJ, tentando modificar a situação processual”, completa.

No caso de Marcola e Alejandro, que estão presos na Penitenciária Federal de Brasília, e de Everton, preso no CDP de Caiuá, também vale o prazo de até 10 dias para apresentar uma resposta escrita à acusação, após a decisão.

Já para Paloma e Leonardo, sobrinhos de Marcola que estão foragidos no exterior, o prazo é de 15 dias para apresentar a resposta, após a citação por edital e a expedição de mandado de citação pessoal, nos endereços conhecidos.


Com informações do G1


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