Pai é denunciado no ES por tortura e morte de bebê que chorava de fome


Crime aconteceu em abril e pai está preso; defesa relata que conseguiu provas de que ele é inocente

Arte - Camilly Napoleão com Adobe Firefly

O choro de fome de uma bebê de apenas 1 ano e 11 meses foi o estopim para o ataque de fúria que tirou a vida de Eloara de Jesus Izidorio. Ela foi brutalmente espancada e arremessada contra a cabeceira de madeira de um cama pelo próprio pai. O crime aconteceu no mês de abril de 2026, na zona rural de Aracruz, Norte do Espírito Santo.

O caso foi o desfecho trágico de uma rotina contínua de castigo e tortura. É o que descreve a denúncia do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) contra o pai, Admilson de Jesus Agapito. “Atos de extrema crueldade inimagináveis de ser dispensados a qualquer ser humano, muito menos a uma criança de tenra idade”, é dito no texto. A defesa nega as acusações, veja abaixo.


O que aconteceu

A denúncia, assinada pelo promotor Danilo Raposo Lirio, titular da 1ª Promotoria de Justiça Criminal de Aracruz, relata que a violência na casa da família se agravou a partir de 3 de abril de 2026.

Era por volta da meia-noite, e o pai bebia cerveja e cachaça quando a filha se aproximou, apontando para a comida e chorando. Irritado com a situação, Admilson teria agredido fisicamente a criança, deixando marcas nas costas e olhos. A bebê também foi atingida com uma paulada.

No dia seguinte, por volta das 6 horas, a pequena acordou e voltou a pedir comida para a mãe. Novamente, o pai teria se irritado com o choro, agarrou a filha pelo cabelo e a arremessou contra a cabeceira de madeira da cama. Duas horas depois ele deixou a casa.

Por volta das 16 horas, percebendo que a filha não acordava, a mãe acionou a irmã, relatando que ela estava desmaiada. As investigações revelaram que a bebê ficou desacordada por cerca de 10 horas. Eloara foi levada para a casa da tia, onde chegou com hematomas, inchaços pelo corpo e expelindo sangue pela boca e nariz.

No mesmo dia, a mãe enviou mensagens e fotos para a avó da criança, que mora na Bahia, contando o que tinha acontecido. “Admilson só espanca a menina sendo que a menina não faz nada”, desabafou a avó ao responder a mensagem, anexada ao processo.

Na manhã de domingo, dia 5, Eloara vomitou sangue e foi levada à Unidade de Pronto Atendimento de Jacupemba. No local, os médicos atestaram que ela já estava sem sinais vitais, apresentando hematomas e lesões pelo corpo. Por meia hora, a equipe médica tentou reanimá-la, sem sucesso. A morte foi declarada às 11h55min.


Histórico de violência

Segundo o Ministério Público, os laudos do Serviço Médico Legal (SML) corroboram o histórico de violência extrema contra a menina. A morte foi causada por uma lesão hepática extensa, com um trauma que gerou sangramento intra-abdominal, apontado como a causa imediata do óbito. Foram ainda identificadas lesões externas em diferentes estágios de evolução, compatíveis com a Síndrome da Criança Maltratada.

O relato no texto é de que Eloara vivia sob intenso sofrimento físico e psicológico. Ela apresentava marcas que demonstravam que sofria chicotadas nas costas, condição que fez com que, no dia em que foi arremessada pelo pai, estivesse em estado de prostração e letargia, fato registrado nas mensagens enviadas para a avó.


Crimes apontados

Admilson foi denunciado por feminicídio no contexto de violência doméstica e familiar, com a qualificadora de recurso que impossibilitou a defesa da vítima, uma bebê que era sua própria filha. O MPES aponta que o acusado utilizou de tortura e meios cruéis, como chicotadas e espancamentos diversos pelo corpo, especialmente na região da cabeça.

A promotoria destaca que a motivação foi fútil, desproporcional e injustificável. “Uma vez que a criança chorava (de fome e de dor) e o acusado se incomodava com o choro”, relatou o promotor Danilo Raposo Lirio.

O Ministério Público já se manifestou pela conversão da prisão temporária de Admilson em prisão preventiva. Entre os motivos, destaca-se o fato de o agressor ter outra filha recém-nascida, o que gera risco iminente de que a bebê e a mãe também sejam vítimas de violência.

Foi pedida a instauração de um novo inquérito para investigar crimes de maus-tratos contra a segunda filha, além do histórico de violência doméstica contra a companheira. Pesa ainda contra Admilson a acusação de ter apagado diversas mensagens do telefone da mãe da criança antes de sua prisão em flagrante. “O que mostra interferência para desaparecer com provas”, assinalou o promotor.


Defesa aponta outro cenário

A advogada Flávia Falquetto Raposa faz a defesa de Admilson. Relata que fez uma investigação defensiva, ouvindo outras testemunhas que não prestaram depoimento à polícia.

“Os fatos não se deram como foram narrados pela mãe. Foi o sobrinho de Admilson que ligou para ele buscar a filha e quando ele chegou, a bebê estava em um carrinho, já desfalecida. Temos informações de que era a mãe que agredia a filha. O pai é inocente e nós vamos provar”, assinalou a advogada.

Ela informou ainda que o material obtido com as investigações foi apresentado à Justiça na última quarta-feira (27), quando ela também solicitou a revogação da prisão de seu cliente. “Já pedimos que as novas testemunhas sejam ouvidas em juízo. Os novos relatos mostram que ele é inocente”, afirmou.


Mãe não denunciada

O Ministério Público decidiu não denunciar a mãe de Eloara, motivo pelo qual o nome dela não está sendo divulgado. Foi considerado o contexto social da mulher: ela nasceu e foi criada na mais absoluta pobreza, tem pouca ou nenhuma instrução formal, declara ser pessoa com deficiência (autista) e também apanhava sistematicamente do companheiro. “[Ela vivia] refém do ciclo nefasto de violência”, pontuou o promotor.

As investigações apontaram que a mãe tentou buscar ajuda do Estado para enfrentar as sucessivas agressões. Em 19 de dezembro do ano anterior, ela acionou a Polícia Militar para relatar os abusos aos quais ela, grávida na ocasião, e Eloara eram submetidas.

No boletim de ocorrência registrado na época, consta o relato: “Mulher grávida de 8 meses foi agredida pelo marido com chutes, além dela as crianças foram agredidas também, vai esperar na beira da estrada”. O fato aconteceu cerca de três meses antes da morte da bebê.

Como não há informações de que ela tenha recebido amparo das autoridades após o registro, a mãe decidiu, durante as agressões de abril, pedir à avó materna, na Bahia, que acionasse o Conselho Tutelar e mostrasse os vídeos que expunham as marcas da violência sofrida por Eloara.

Antes do crime, a família vivia no interior da Bahia, no distrito de Itabatã, em Mucuri. Cerca de um mês antes do episódio fatal, eles haviam se mudado para o distrito de Jacupemba, em Aracruz, em busca de trabalho na colheita de café da região.


Com informações de A Gazeta/ Vilmara Fernandes




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