
Crédito: Reuters
Cerca de 24 horas após uma grande enxurrada repentina e um deslizamento de terra atingirem o Nepal e o Tibete, equipes de resgate correm contra o tempo para buscar sobreviventes, recuperar corpos e fornecer assistência a comunidades afetadas pelo desastre.
Ao menos 389 pessoas morreram no Nepal e três no Tibete.
A tragédia ocorreu na quarta-feira (26/8) na fronteira entre o Nepal e o Tibete, controlado pela China. Estima-se que pelo menos 900 pessoas estejam desaparecidas no Nepal e 558 no Tibete.
Segundo o Conselho de Turismo do Nepal (NTB, na sigla em inglês), 540 dos desaparecidos são estrangeiros, de 31 países.
A Índia é o país com o maior número de desaparecidos, com 178 pessoas, seguida pelos Estados Unidos, com 65; Ucrânia, com 53; Malásia, com 51; Austrália, com 35; e Reino Unido, com 33.
A área é bastante procurada por peregrinos e turistas que fazem trilhas.
Mais de 13 mil militares e policiais foram mobilizados para participar das operações de busca.
Acampamentos temporários de assistência foram montados e atendimento médico gratuito está sendo oferecido aos cidadãos feridos.
O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, disse que o foco do governo é salvar vidas, procurar as pessoas desaparecidas e prestar assistência aos afetados.
O diretor do Centro de Estudos sobre Desastres da Universidade Tribhuvan, no Nepal, Basanta Raj Adhikari, afirmou à BBC que há risco de mais duas ondas de enchentes entre quinta (27/8) e sexta-feira (28/8).
"Ainda não sabemos", diz ele, acrescentando que continua a discutir a situação com colegas na China que estão monitorando a situação. "Não há chuvas intensas, mas pode ocorrer [um] deslizamento de terra."
Ele acrescenta que vem monitorando os riscos nas montanhas do Himalaia.
"A mudança climática está realmente acontecendo aqui", explica.
"Estamos observando, mas não sabíamos que isso aconteceria em um dia específico."
O Itamaraty publicou uma nota na quarta-feira afirmando que não há, até o momento, registro de brasileiros entre as vítimas.
"O governo brasileiro expressa profundo pesar e solidariedade às famílias das vítimas, ao povo e ao governo do Nepal e da China", diz a nota.
"A Embaixada do Brasil em Katmandu e a Embaixada do Brasil em Pequim acompanham com atenção os desdobramentos da calamidade no país."
Segundo o NTB, uma parte significativa dos visitantes afetados pelo desastre seguia rumo ao Kailash Mansarovar, no Tibete, um local de peregrinação.
A rota afetada também dá acesso ao Parque Nacional de Langtang e ao lago sagrado de Gosainkunda.
O número de mortos e desaparecidos pode aumentar nos próximos dias, à medida que as equipes de resgate consigam avaliar a dimensão da tragédia.
O desastre é considerado o mais devastador no Nepal desde o terremoto de 2015, que matou quase 9 mil pessoas.
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), as inundações repentinas deixaram mais de 17 mil crianças precisando de assistência humanitária de urgência.
"As crianças que sobreviveram às inundações agora enfrentam riscos maiores de doenças, desnutrição, violência e exploração", disse Alice Akunga, representante da organização no Nepal.
Mapa mostra regiões afetadas pelas enchentesPaís 'em choque'
Um porta-voz do governo nepalês disse à BBC que a dimensão da destruição está "além da imaginação".
O distrito de Chitwan registrou o maior número de mortes. Rasuwa e Nuwakot, às margens do rio Bhotekoshi, também foram atingidos.
Houve destruição de estradas, pontes, redes de comunicação e infraestrutura hidrelétrica, incluindo danos ao projeto hidrelétrico de Trishuli.
A polícia diz que está trabalhando para levar moradores de áreas de risco para locais seguros e realizar operações de busca e resgate.
Militares, policiais, trabalhadores do setor de energia e funcionários de alfândega e imigração estão entre as centenas de desaparecidos.
O primeiro-ministro Balendra Shah afirmou que o país está "em choque e profundamente abalado" pela perda de vidas e pelos danos causados pelas enxurradas.
Em uma publicação nas redes sociais, ele classificou o desastre como "repentino" e "de grandes proporções" e prestou condolências às vítimas e suas famílias.
Shah também afirmou que o governo mobilizou imediatamente todos os recursos disponíveis para as operações de resgate.
Ao lado da China e da Índia, o Nepal abriga oito das montanhas mais altas do mundo, incluindo o Monte Everest, conhecido localmente como Sagarmatha.
Como um dos países mais pobres do mundo, a economia do Nepal depende fortemente de ajuda externa e do turismo.
'Grandes perdas de vida' no lado tibetano
A mídia estatal chinesa CCTV relatou três mortos e 558 desaparecidos no Tibete, considerado uma região autônoma da China.
O presidente chinês Xi Jinping ordenou um esforço de resgate "total" para localizar os desaparecidos, além de pedir reforço no monitoramento e nos sistemas de alerta antecipado para evitar novos desastres.
O governo chinês também determinou o envio de equipes à região para operações de busca e resgate.
Yee Liang, empresário chinês baseado em Katmandu, disse à BBC que sua empresa de logística tem sete caminhões na área atingida, todos com motoristas nepaleses, e que perdeu contato com todos eles por falta de sinal.
Segundo ele, não houve alerta prévio, embora deslizamentos ocasionais fossem comuns na estação chuvosa.
Desta vez, disse, a situação "parece muito mais grave".
Já Guan Daoxuan, da província chinesa de Sichuan, relatou à BBC ter perdido contato com a esposa, que trabalha para uma construtora estatal envolvida em obras de estradas e pontes no Tibete.
Segundo ele, autoridades nepalesas tentaram enviar um helicóptero para inspecionar a área, mas ventos fortes dificultaram o acesso.
O Partido Comunista no Tibete, controlado pela China, está convocando seus membros nas bases para ajudar a manter a estabilidade na região após o deslizamento de terra.
O partido teme possíveis manifestações de revolta ou instabilidade em uma região frágil, que tem um histórico de resistência ao governo de Pequim.
Os membros estão sendo orientados a ajudar nos esforços de assistência às vítimas e a oferecer orientação emocional e apoio psicológico aos moradores afetados — especialmente àqueles que perderam pessoas queridas.
O que causou a enchente

Casas encontram-se parcialmente submersas em águas barrentas à beira de um rio após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal - Crédito: Prabin RANABHAT / AFP via Getty Images
Inicialmente, porta-vozes do governo do Nepal e de agências de geologia disseram que o gatilho para a enchente havia sido um terremoto. Sensores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) chegaram a registrar um tremor de magnitude 4,4 na mesma região, momentos antes da enxurrada.
Algumas horas depois, porém, o próprio serviço americano se corrigiu: o tremor não teria sido a causa da enchente, mas, sim, uma consequência de um "colapso glacial" — um grande deslocamento de gelo e detritos.
Segundo o USGS, o evento sísmico provocado pelo colapso glacial foi equivalente à magnitude 5,2 e aconteceu perto da fronteira entre Nepal e China às 8h37 da manhã, no horário local — ou 22h52 do dia anterior, no horário de Brasília.
Em outras palavras, uma grande parte de uma geleira se desprendeu em uma região montanhosa e despencou pelo vale, incorporando gelo, pedras e sedimentos pelo caminho. Essa hipótese também é sustentada por observações feitas a partir de imagens de satélite.
Fonte: BBC News

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