Quem é o pastor, condenado com a Igreja a pagar R$ 150 mil por discurso sobre beijo na boca da filha


Lúcio Barreto Júnior tem mais de 2,5 milhões de seguidores nas redes sociais. Atualmente, ele atua na Lagoinha Alphaville, em São Paulo.

Pastor de BH afirma já ter beijado a própria filha na boca, durante culto

O pastor Lúcio Barreto Júnior, condenado junto com a Igreja Batista da Lagoinha a pagar R$ 150 mil de indenização por causa de um discurso discriminatório de gênero e de incitação à violência sexual contra meninas e mulheres, acumula mais de 2,5 milhões de seguidores nas redes sociais.

O sermão que levou à condenação do pastor foi feito durante um culto em abril de 2024. Na ocasião, ele disse que beijou a própria filha, à época com 11 anos, na boca. 

Lucinho, como é conhecido, nasceu em Belo Horizonte e tem 54 anos. Bacharel em Teologia Ministerial e mestre em Teologia, ele dedicou sua trajetória à evangelização de jovens.

Atualmente, é pastor na Lagoinha Alphaville, em São Paulo. A igreja ocupa uma área de 115 mil metros quadrados e tem capacidade para receber cerca de 50 mil pessoas.

O religioso também é autor de diversos livros, como "O Manual de sobrevivência para o jovem cristão" e a série "Loucos por Jesus".

Ele é casado com a também pastora Paty Barreto, pai de dois filhos e avô. Nas redes sociais, publica vídeos com reflexões e estudos sobre a Bíblia.


Entenda a condenação

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) pediu a condenação do pastor e da Lagoinha pelo sermão em que ele disse ter beijado a filha na boca. O discurso foi feito durante um culto voltado ao público masculino, com o tema "educação de filhos".

"Eu peguei minha filha um dia, dei beijo nela, falei que amava ela. Ela passava e eu falava assim: 'Nossa, que mulherão, ai se eu te pego'. Um dia ela distraiu e eu dei um beijo na boca dela. E eu falei assim: 'Quando eu encontrar seu namorado, eu vou falar: você é o segundo, eu já beijei'", disse o pastor.

O MPMG destacou que o sermão foi gravado e difundido no canal oficial da Igreja Batista da Lagoinha no YouTube e reproduzido nas redes sociais sem qualquer comentário crítico.

O órgão argumentou também que a manifestação do líder religioso continha mensagem de cunho sexista e patriarcal que objetifica o corpo feminino, naturaliza a violação do consentimento e reforça estereótipos de submissão e posse sobre a mulher.

A Igreja Batista da Lagoinha afirmou à Justiça que não tem responsabilidade pelas declarações dos pastores. Lúcio Barreto Júnior alegou, nos autos, que suas manifestações estavam amparadas pelas liberdades constitucionais de crença e expressão.

Ele declarou também que o episódio ocorreu em 2011, em um momento de brincadeira com os filhos, e que as investigações sobre o caso foram arquivadas pela Polícia Civil.

Ao analisar a ação, a juíza Miriam Vaz Chagas, da 17ª Vara Cível da Comarca de Belo Horizonte, considerou que "as liberdades de expressão e religiosa encontram limites intransponíveis".

"A pregação e a difusão de falas que menosprezam a dignidade das mulheres e sexualizam menores atenta frontalmente contra os postulados de igualdade material, proteção contra a violência de gênero e respeito aos direitos fundamentais de meninas e mulheres", diz um trecho da decisão, assinada na última segunda-feira (5).

Além da indenização de R$ 150 mil, que deverá ser dividida entre os réus, a magistrada determinou que o pastor realize um novo sermão sobre educação de filhos em que "exalte o dever de enfrentamento ao ódio, à discriminação e a todas as formas de violência, inclusive sexuais, contra mulheres e crianças, retratando-se expressamente das declarações".

A Lagoinha terá que "adotar todas as medidas operacionais para a gravação e veiculação integral do sermão de retratação". Cabe recurso da decisão.


O que diz a defesa do pastor

Em nota, o advogado Leonardo Girundi, responsável pela defesa do pastor, afirmou que recebeu "com perplexidade" a sentença.

"Ela não retrata o que consta nos autos. As falas do pastor, de poucos segundos, foram retiradas do contexto de uma pregação de mais de 40 minutos. Devido a isto faremos os recursos cabíveis na expectativa de reversão do resultado. Reafirmamos o nosso compromisso com a verdade e na defesa das crianças e mulheres".

O g1 entrou em contato com a Lagoinha, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.

Com informações do G1





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