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Carro flex: veja cinco mitos e verdades sobre motores bicombustíveis

 


Desde 2003, quando o primeiro carro flex do mundo foi lançado no Brasil, essa tecnologia virou padrão nos automóveis fabricados no País e só tem evoluído.

Após a chegada do pioneiro VW Gol bicombustível, o consumidor ganhou a liberdade de escolha entre a gasolina e o etanol, podendo abastecer com a alternativa mais vantajosa economicamente.

Além disso, os veículos flex viabilizaram a continuidade da produção do etanol, combustível de origem renovável, que faz toda a diferença em tempos de controle cada vez mais rígido das emissões de poluentes.

Afinal de contas, o álcool que você coloca no tanque é extraído da cana-de-açúcar, que, por meio da fotossíntese, extrai da atmosfera o dióxido de carbono e o converte em oxigênio - compensando as emissões do gás causador do efeito estufa.

Porém, ainda há muitas dúvidas informações equivocadas quando se trata de carros flex.

Para esclarecer as coisas, conversamos com os engenheiros Fabio Uema, diretor da AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva), e Renato Romio, chefe da Divisão de Motores e Veículos do Centro de Pesquisas do Instituto Mauá de Tecnologia.

Confira cinco mitos e verdades sobre o tema, de acordo com os dois especialistas.

1 - Flex não requer período de adaptação ao trocar combustível

Mito. De acordo com Uema, se o veículo estiver abastecido 100% com etanol ou gasolina e for realizada a troca após o tanque se esgotar, é necessário um período, curto, para que a ECU, a central eletrônica do motor, faça as adaptações necessárias no sistema de injeção.

Isso acontece porque o etanol tem poder calorífico menor do que a gasolina e exige que o propulsor injete mais combustível.

"Ao fazer a substituição, é necessário rodar alguns quilômetros para que haja esse 'aprendizado' da ECU. O tempo ou a quilometragem necessárias variam de acordo com o modelo do carro. Essa informação geralmente está disponível no manual do proprietário".

A identificação do novo combustível não é imediata porque é necessário que o antigo que resta nos dutos seja queimado e que a sonda de oxigênio e/ou o sensor de etanol identifiquem a troca, explica.

Fabio Uema enfatiza que, se a substituição for feita de gasolina para etanol, é ainda mais importante respeitar esse tempo de aprendizado.

"Dependendo da situação, o automóvel pode demorar a pegar posteriormente, por identificar que ainda tem gasolina no tanque. Após dar a ignição, siga a recomendação do manual para que finalmente a ECU faça a adaptação".


2 - Flex bebe mais do que motor só a gasolina ou etanol

Verdade. Uema esclarece que, de fato, os carros flex geralmente buscam um meio-termo na taxa de compressão para funcionarem bem tanto com etanol quanto com gasolina - combustíveis com densidades energéticas diferentes.

Ficar no meio do caminho faz com que o motor não atinja a máxima eficiência, sobretudo em termos de consumo, diferentemente do que se fosse projetado para "beber" somente álcool ou o combustível derivado do petróleo.

O engenheiro da AEA destaca que essa taxa de compressão intermediária é acompanhada de tecnologias modernas para diminuir o consumo, como redução no atrito de peças internas e óleos lubrificantes mais avançados.

Renato Romio acrescenta que a utilização de comando de válvulas variável é outra estratégia para minimizar a diferença de consumo entre etanol e gasolina.


3 - Motor flex tem mais desempenho com etanol

Depende. Realmente, propulsores flexíveis costumam entregar mais potência e torque com etanol no tanque do que quando são abastecidos com gasolina.

Isso acontece porque o álcool queima mais rapidamente do que a gasolina e aceita taxas de compressão maiores. Por outro lado, por ter densidade energética cerca de 30% menor ante a gasolina, o etanol requer maior gasto de combustível para percorrer a mesma distância.

Porém, destaca Fabio Uema, existem montadoras que adotam estratégia diferente e ajustam o motor para render o mesmo ou quase o mesmo com ambos os combustíveis para atender requisitos como consumo e durabilidade.

Há alguns modelos disponíveis no Brasil cujo torque não muda. O Toyota Corolla com motor 2.0 flex, por exemplo, rende 21,4 kgfm de torque tanto com gasolina quanto com etanol. Já a potência varia: 177 cv com o derivado da cana-de-açúcar e 169 cv com o combustível de origem fóssil.


4 - Não é necessário fazer 'rodízio' entre combustíveis

Depende. De acordo com Romio, essa orientação varia de acordo com a fabricante e deve ser conferida no manual do proprietário.

"O etanol tende a desgastar mais componentes internos como as válvulas. Por esse motivo, as montadoras costumam produzi-las, juntamente com outras peças do motor, com um material diferente para lidar com esse desgaste maior", destaca o engenheiro do Instituto Mauá de Tecnologia.

Por outro lado, algumas montadoras recomendam encher o tanque com gasolina eventualmente para manter a saúde do motor.

Renato Romio e Fabio Uema explicam a razão disso.

De acordo com os especialistas, a combustão do etanol não produz carbonização interna como a gasolina e isso pode ser prejudicial - a ponto de causar, com o tempo, danos no propulsor.

"A carbonização, em pouca quantidade, age como um lubrificante, reduzindo o atrito entre peças metálicas e, consequentemente, o consumo", diz Uema.

Romio complementa:

"Usar gasolina de vez em quando ajuda a limpar os bicos injetores, especialmente de veículos com injeção direta de combustível".


5 - Etanol polui menos

Mito. Conforme Romio, os propulsores bicombustíveis são ajustados para emitirem a mesma quantidade de hidrocarbonetos, monóxido de carbono e óxidos de nitrogênio tanto com etanol quanto com gasolina.

"As fabricantes fazem os projetos de forma a atender as normas de poluição independentemente do combustível utilizado", explica.

De acordo com o engenheiro, a grande vantagem do etanol não está relacionada a poluentes e sim ao controle do efeito estufa.

"Como a gasolina, a queima do álcool no motor gera dióxido de carbono, que contribui para o aquecimento global. A diferença é que o etanol tem origem vegetal. Ou seja, a cana-de-açúcar com a qual é produzido retira o CO2 da atmosfera e o converte em oxigênio, trazendo um ganho ambiental comparável ao de carros elétricos".



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