Tive câncer aos 26 anos. Quatro décadas depois, minha história oferece o presente da esperança


Na época, parecia uma sentença de morte. Mas, 40 anos depois, ainda estou aqui e saudável

Aos 26 anos de idade, um oncologista que eu tinha acabado de conhecer me disse que eu estava com câncer. Minha reação foi bem apropriada: vomitei. Fui a primeira pessoa do meu grupo de amigos a receber um diagnóstico de câncer. Ninguém sabia o que dizer ou o que fazer por mim.

É por isso que manchetes como “Câncer está crescendo entre jovens” me abalam profundamente. Em todo o mundo, a incidência de cânceres de início precoce (entre 18 e 49 anos) aumentou quase 80% entre 1990 e 2019; as mortes por esses tipos de câncer subiram quase 30% no mesmo período.

Agora sou um sobrevivente há 40 anos, algo que não imaginava que viveria para ver. Embora fique feliz que os pesquisadores estejam trabalhando duro para entender o porquê desse aumento de casos, descobri que contar minha história para jovens pode fazer a diferença.

Steven Petrow em Westport, Connecticut, em 2002. O escritor descobriu um câncer testicular aos 26 anos. Foto: Courtesy of Steven Petrow/The Washington Post

Acontece nos lugares mais estranhos: numa reunião da faculdade ou no aniversário de um amigo – e muitas vezes quando sou voluntário no Memorial Sloan Kettering Cancer Center. Não posso expressar de outra forma senão dizendo que me transformei num presente chamado esperança.

Eis o que aconteceu depois que o oncologista me disse que eu estava com câncer testicular: ao longo de oito meses, passei por duas cirurgias e 16 sessões de um poderoso “coquetel” de quimioterapia. Perdi a barba, os cabelos e os pelos do peito e da região pubiana. Perdi 15% do peso corporal e tive aftas, neuropatia, náuseas, constipação e perda auditiva. Fiquei com duas cicatrizes, uma de 7,5 cm na região pubiana e a outra de 30 cm que vai do umbigo até o esterno.

Meu câncer – que chamei de “Max”, para poder xingá-lo pelo nome – afetou todos os aspectos da minha vida, desde a carreira e o dinheiro até o sexo e a intimidade, destruindo minha saúde mental e meus relacionamentos. Foi pesado demais.

Conheço muito bem o medo e o isolamento que muitos jovens com câncer vivenciam. O câncer é sempre uma experiência solitária, ainda mais para jovens adultos. A solidão que eu sentia era pervasiva. Pessoas mais velhas, principalmente os amigos dos meus pais, não entendiam. E meus contemporâneos muitas vezes não sabiam o que fazer, porque eu tinha a duvidosa distinção de ser o primeiro amigo deles a enfrentar uma doença potencialmente fatal. Um colega de pós-graduação me disse anos depois: “Eu simplesmente não sabia como ser seu amigo depois que você foi diagnosticado”.

Naquela época, entrei para um grupo de apoio, onde quase todos os meus “colegas” eram casados, tinham filhos (até netos) ou eram aposentados. “As questões para alguém de 25 anos podem ser muito diferentes das de alguém de 35 ou 45 anos ou ainda mais”, me disse recentemente Nancy Borstelmann, codiretora do Programa de Câncer de Início Precoce de Yale. Mas se há uma coisa que todos nós temos em comum, disse ela, é o “medo de morrer”.

Para ser justo, também eu nem sempre sabia o que dizer ou fazer. Eu me irritava com aquelas pessoas que perguntavam como eu estava ou, em alguns casos, até se eu ia morrer. Meu grupo simplesmente não sabia nada, nem tinha muita experiência com pessoas doentes de verdade. Certa tarde, entrei numa discussão acalorada com uma enfermeira que estava sugerindo uma prótese masculina “pequena”. Como qualquer outro cara de vinte e poucos anos, eu insistia na “grande”. (A “média” não estava disponível). Reagi como se fosse uma decisão de vida ou morte. Obviamente era uma bobagem, mas eu sentia que minha “masculinidade” estava em jogo. Era um território novo, e todos nós tínhamos lições a aprender, inclusive eu.

Tentei não me preocupar muito (ou pelo menos não surtar) enquanto aguardava os laudos de patologia, raios-X, ultrassons e tomografias computadorizadas. Era incerteza demais. Uma enfermeira me sugeriu biofeedback, que, segundo ela, poderia diminuir minha dependência de ansiolíticos. Experimentei e ajudou. Ela também explicou que o pior resultado possível não é o mais comum. Eu me recusei a aceitar essa ideia, mas o tempo provou que ela estava certa: continuo saudável.

Steven Petrow em 2022. Ele conta que o câncer afetou todos os aspectos de sua vida Foto: Courtesy of Steven Petrow/The Washington Post

Houve outros desafios. Depois da cirurgia, eu não conseguia mais fazer tudo sozinho – como me abaixar para amarrar os sapatos ou ir às compras. Precisei de ajuda pela primeira vez na vida. Levei um tempo para aprender a pedir.

Eu não sabia como falar sobre meus medos. Durante as duas semanas que fiquei hospitalizado, me apoiei num sarcasmo bem afiado, que afastava as pessoas, ou na minha lista cada vez maior de queixas – como os lençóis de poliéster, os robes que nunca cobriam o bumbum e o tamanho daquela prótese de silicone.

Reclamava da perda de controle enquanto tentava – em vão – retomá-lo. Quando meu cabelo começou a cair, cortei-o preventivamente. Com medo de que meu namorado me deixasse, terminei com ele primeiro.

Eu me culpava. “O que fiz para merecer isso?”, eu me perguntava sem parar. Ainda não tinha aprendido a lição de que coisas ruins acontecem com pessoas boas, de que qualquer ilusão de controle é só isso mesmo: ilusão. O câncer destruiu qualquer noção de que a vida pudesse ser justa.

Também descobri que as marcas psicológicas da minha doença podiam ser piores que as físicos. Minha segunda cirurgia, mais complicada, tinha como possível efeito colateral afetar a fertilidade. Aos 26 anos, eu mal tinha pensado em ter filhos quando uma assistente social do hospital me perguntou: “Você gostaria de ser encaminhado para um banco de esperma?” (Sim, por favor).

Uns anos depois do diagnóstico, quando todos os tratamentos terminaram, abandonei a pós-graduação numa névoa de incerteza. Escrevi no meu diário da época: “Se for para viver uma vida mais curta, não quero passar os próximos cinco anos neste programa”. Não pensei em economizar para a aposentadoria, para comprar uma casa, para fazer qualquer uma das coisas “adultas” que meus amigos estavam fazendo. Em vez disso, comprei um monte de suéteres bonitos e os coloquei em vários cartões de crédito. Por que pagar hoje, se pode ser que nem exista amanhã?

Eu estaria enganando você se desse a impressão de que tudo foi triste e sombrio. Encontrei uma nova carreira como escritor. Conheci um novo namorado. Meu cabelo cresceu de novo. Também escolhi encarar algumas perguntas importantes: Como viver uma vida que valha a pena? Como quero passar meu tempo? O que me traz alegria?

Esta é a ironia de ter câncer na juventude: você encara a ideia da morte cedo demais, mas se tudo correr bem, terá muitos anos pela frente. Você tenta acreditar que a doença ficou para trás, sempre temendo seu retorno. Mas o tempo de fato cura algumas feridas. E também me deu uma perspectiva muito necessária, até mesmo um senso de humor. Quando perdi o emprego, me separei do marido e mesmo quando um galho enorme de nogueira quase esmagou minha casa, consegui dizer a mim mesmo: “Pelo menos não é câncer!” 

Fonte: Estadão



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