'Sair da prostituição foi mais difícil do que entrar. Hoje ajudo outras profissionais do sexo a planejar o futuro'


Depois de uma carreira vitoriosa no esporte e dez anos trabalhando como profissional do sexo, Kamila passou a produzir conteúdo sobre sua trajetória. Hoje, oferece mentoria a mulheres que estão nesse mercado e, principalmente, àquelas que começam a pensar em uma vida para além dele

KKamila deixou de atender como garota de programa, mas transformou uma década de experiência em conteúdo e mentorias para outras profissionais do sexo. — Foto: Reprodução/Acervo pessoal

“Eu costumo dizer que sair da prostituição foi mais difícil do que entrar. Fui atleta até os 22 anos. Morei na Tailândia, competia no muay thai e fui a quarta do mundo em 2014. Só que comecei a perceber que a vida de atleta não dava muito dinheiro. Na época, não existia UFC, então sabia que minha carreira não ia durar muito.

Voltei para o Brasil frustrada com o esporte e com uma cirurgia no joelho. Comecei a dar aulas como personal trainer, mas ainda ganhava pouco. Morava com meu namorado, que também era do muay thai, e tivemos uma briga muito séria. Eu queria que ele saísse de casa, mas o apartamento era dele e eu não tinha dinheiro para bancar outro lugar. Foi quando comecei a procurar na internet algum trabalho que pudesse me dar dinheiro.
Coloquei no Google: ‘Trabalho que não dá cadeia e dê dinheiro fácil para mulher’. O primeiro resultado foram as famosas casas de massagem. Eu morava perto de Moema, que considero o antro desse tipo de estabelecimento em São Paulo. Mandei minhas fotos pelo WhatsApp, fui aprovada na hora e, no dia seguinte, já estava trabalhando.

A mudança nos ganhos foi absurda: o que eu fazia em um mês como personal trainer, fiz em cinco dias. Meu primeiro cliente foi uma coisa muito engraçada, porque eu estava muito nervosa. Coloquei um hobby rosa e fui. As mulheres da casa me deram dicas, mas tratei o cliente de uma forma muito seca porque não sabia o que falar e achava que precisava fingir que já tinha experiência. Ele foi muito bonzinho e parecia saber que era a minha primeira vez. Quando acabou, pensei: ‘Nossa, gente, é só isso?’.

Depois tive experiências ruins também. Nos primeiros três meses, sentia muita culpa, mas, ao mesmo tempo, gostava daquele ambiente e das mulheres. Minha melhor amiga até hoje é uma mulher que conheci lá. Temos dez anos de amizade.

Eu achava que ia ficar seis meses e ficar milionária. Atendia de 12 a 15 clientes por dia e a casa cobrava R$ 200: R$ 100 ficavam comigo e R$ 100 com a casa. O primeiro ano foi muito descontrolado.

Você se deslumbra porque não é exatamente dinheiro fácil, é dinheiro rápido. Comecei a criar uma série de metas: primeiro queria ter R$ 50 mil na conta, depois comprar um apartamento, depois outro imóvel, viajar para a Europa… Quando você consegue uma coisa, já quer outra. Vira um ciclo de querer sempre mais dinheiro.

Acho que tinha muito da minha cabeça de atleta nisso. Como fui a quarta melhor do mundo no esporte, queria ser a melhor nisso também. Fiquei bem obcecada.

Eu trabalhava das 9h às 22h. Muitas vezes já estava cansada e não queria aceitar mais um cliente, mas acabava aceitando. No começo, quando você é novidade, consegue escolher mais. Depois de um tempo, você é escolhida e começa a ter que aceitar mais. O primeiro ano aumenta o ego e depois ele cai.

Fiquei dez anos trabalhando com isso. Nesse período, viajei pela Europa, Ásia e Austrália e tive experiências de todo tipo. Passei por situações muito difíceis, inclusive com clientes, polícia e pessoas perigosas. Fui acumulando histórias que, durante muito tempo, fizeram parte da minha vida como se aquilo fosse normal.

Kkamila viajou o mundo trabalhando como garota de programa, chegou a atender em Los Angeles, México, Itália, Tailândia e Alemanha — Foto: Reprodução/Acervo Pessoal

No meu último ano, porém, comecei a ficar muito mal. Eu vomitava, passei a ter problema com o cheiro dos clientes e desenvolvi uma mania de perseguição. Já tinha viajado, conhecido muita coisa e comecei a sentir que não queria mais atender. O problema é que também não sabia viver fora daquele universo.

Eu não tinha vício em droga ou álcool. O que tinha era uma ligação muito forte com o trabalho e com aquele mundo. Por isso, comecei a pensar em uma saída que não significasse simplesmente abandonar tudo.

Foi então que comprei um bordel de um antigo responsável pela casa onde eu trabalhava. Para mim, fazia sentido porque continuaria naquele mundo, mas em outra posição. Eu já tinha dinheiro guardado e comprar a casa significava que estava subindo de cargo. Era uma saída: quando uma garota de programa vira cafetina, depois não consegue mais voltar a atender. Eu comparava com o esporte: é como chegar à faixa-preta e depois não conseguir voltar para a faixa-branca.

As mulheres passaram a me respeitar de outra maneira porque eu tinha conseguido guardar dinheiro suficiente para comprar um negócio. A casa tinha umas 50 mulheres, além de recepcionista, segurança, cozinheira e outros funcionários. Era uma mansão no Morumbi. O problema é que eu sabia ser garota. Não sabia administrar.

Comprei a casa em 2023 e quebrei em 2024. Depois disso, fui para a Tailândia e passei um ano lá, alugando apartamentos e vivendo porque era barato. Só que estava completamente perdida. Não conseguia voltar para a prostituição, porque já tinha decidido que não queria mais atender, e também tinha descoberto que ser dona de uma casa não era para mim.

Foi nesse período que comecei a fazer vídeos para o TikTok, inicialmente como um diário. Contava as histórias que tinha vivido, falava das viagens, das minhas entradas e saídas dos países, e alguns vídeos começaram a viralizar.

Um deles, sobre a imigração da Itália, chegou a cerca de 1 milhão de visualizações. Foi assim que minha vida começou a tomar outro caminho.

Depois que comecei a crescer nas redes sociais, uma mulher chamada Camila, que trabalhava com marketing e morava na Espanha, entrou em contato comigo. Ela queria transformar minha história em um e-book e me chamou para fazer uma parceria. Achei que ninguém fosse comprar, mas vendemos 800 e-books no primeiro mês.

Comecei a construir uma presença maior no YouTube, TikTok e Instagram, criei um site, passei a fazer consultorias e desenvolvi as mentorias. Também criei uma comunidade no Telegram, que hoje tem cerca de 3 mil mulheres, e um grupo no WhatsApp com cerca de mil. A mentoria acabou virando o carro-chefe.

Comecei em dezembro e já foram cerca de 600 mentorias. Hoje faço de seis a sete por dia, principalmente com mulheres que trabalham fora do Brasil. E percebi que existe uma diferença muito grande entre a imagem que as pessoas têm da prostituição e a realidade de quem trabalha com isso.

Eu vivi os dois lados. Sei o que é entrar achando que vai ganhar dinheiro rápido, ficar deslumbrada, passar anos trabalhando, juntar dinheiro, viajar, comprar coisas e, depois, perceber que você não sabe o que fazer quando não quer mais atender.

Por isso, não vendo para essas mulheres a fantasia da prostituta milionária. Isso é 1%. A maioria precisa guardar dinheiro, investir, comprar imóvel e pensar no que vai fazer depois.

Na mentoria, converso sobre os países em que trabalhei, documentos, custos de transporte e hotel, sites de anúncio, pagamentos, transferência de dinheiro, segurança, polícia, riscos criminais e outras situações que fazem parte da realidade de quem trabalha com sexo fora do Brasil. Não é sobre vender uma fantasia, mas mostrar uma realidade que conheço porque vivi.


Acho que as profissionais do sexo ficam muito ariscas porque não confiam em ninguém. E entendo isso porque também fui assim. Quando alguém chega oferecendo uma oportunidade, você pensa que pode ter alguma coisa por trás.

Hoje também quero trabalhar com essa passagem para o digital. Vejo muitas mulheres que já têm experiência, conhecimento e habilidades, mas não sabem como transformar isso em outra coisa. Quero montar uma produtora para trabalhar com mulheres que estão migrando para o digital e ajudá-las a transformar essa experiência em conteúdo e outros projetos.

Uma das coisas que mais me preocupam são as mulheres que chegam aos 35, 40 anos e querem parar, mas não sabem o que fazer da vida. Muitas já têm dinheiro, têm imóvel, mas não o suficiente para viver da maneira que gostariam e, principalmente, não têm um propósito para depois.

Eu entendo isso porque aconteceu comigo. Quando parei de ser atleta, me falaram para virar personal trainer. Eu virei, mas aquilo não me preenchia. Tinha passado anos competindo, tinha sido a quarta melhor do mundo e, de repente, esperavam que eu simplesmente encontrasse outra profissão e seguisse em frente.

Por isso, quando uma mulher me fala que quer parar de trabalhar com sexo, não acho que seja suficiente dizer para ela simplesmente parar. Quero saber o que ela vai fazer depois. Ou você para, ou o job para você.

Fiz uma mentoria com uma mulher de 64 anos que trabalhou durante 30 anos na Espanha e quis parar. Ela tem uma experiência enorme, mas precisa pensar em como transformar aquilo em alguma coisa, como uma consultoria, por exemplo. Outra mulher fez um curso de fotografia, e eu a incentivei a seguir por esse caminho.

Não quero que essas mulheres simplesmente abram qualquer negócio porque acham que precisam ter uma profissão nova. Quero que olhem para aquilo que já sabem fazer e descubram como podem transformar esse conhecimento em outra coisa. A saída precisa ser planejada.

Eu mesma demorei para entender isso. Passei anos tentando sair da prostituição sem realmente conseguir sair daquela bolha. Só comecei a encontrar um novo caminho quando percebi que a minha experiência também podia se transformar em trabalho.

Hoje, quero continuar criando projetos ligados às garotas de programa porque elas fazem parte da minha história. Talvez seja essa a maior mudança para mim: durante muito tempo, eu não sabia como sair daquele mundo. Agora sei que não preciso apagar o que vivi para seguir em frente. Posso usar essa experiência para ajudar outras mulheres a construir o que vem depois.”

Com informações da Revista Marie Claire



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