'Fui abusada pelo meu padrinho quando criança. Agora consegui que ele fosse sentenciado'

Maria denunciou o seu abusador na Justiça aos 15 anos — Foto: Reprodução/ Instagram

[ALERTA: este texto aborda temas como violência sexual e abuso infantil, o que pode ser gatilho para algumas pessoas. Se você estiver passando por um momento difícil, procure apoio profissional ou entre em contato com o CVV (Centro de Valorização da Vida) pelo telefone 188.]

“Eu não tenho noção exata da idade que eu tinha quando os abusos sexuais começaram. A única coisa que eu lembro é que eu ainda usava fralda. Minha mãe sabe que eu desfraldei por volta de três a quatro anos, então deduzimos que seja por volta dessa época. Eu sei que só parou perto dos meus oito anos, porque lembro que foi quando comecei a fugir e a perceber que eu podia evitar as situações.

Meu padrinho de batismo, casado com a irmã da minha avó paterna, foi o abusador. Ele sempre foi uma pessoa da família que me buscava na porta da casa da minha mãe. Meus pais são separados, mas sempre tivemos esse contato. Ele era extremamente educado, alguém de quem ninguém suspeitaria. E eu não conseguia fugir porque era uma criança. Não tinha muito isso de ‘não quero ir para lá hoje’. Era ‘vai porque é o dia de ficar na casa da sua avó’ e porque a irmã dela, a minha madrinha, ia também.

Perto dos oito anos, fui entendendo que eu podia não querer ir para lá, e minha mãe já não me obrigava. Foi a época que o abuso parou e comecei a entender que estava errado. Dentro de mim, eu sabia que não era certo porque tinha a questão de tudo ser escondido. Mas ele era responsável por mim, então minha cabeça ficava perdida com tudo o que me dizia: pensava que se eu contasse, destruiria a família e sofreria ameaças.

Eu nunca tive medo das pessoas duvidarem de mim. A certeza era de que, se eu falasse, minha mãe acreditaria. Só que as coisas que ele ameaçava me travavam. Meu pai já vinha de uma família problemática, tinha sofrido muito, então eu pensava: ‘lidei com isso até agora, vou guardar’. Eu meio que ‘superei’ porque o abuso parou de acontecer, então fui tocando a vida.

Aos 15 anos, quando decidi me batizar na igreja evangélica, senti que não era certo estar com esse peso dentro de mim. Não foi algo planejado, mas decidi contar para minha mãe em um dia qualquer. Sentei com ela no sofá e simplesmente contei. Dali, já fomos expor para o meu pai e logo entramos com o processo na Justiça contra o meu padrinho.

Lembro que eu tinha muito medo da reação do meu pai. Minha mãe foi comigo até a casa dele — ela não o via pessoalmente há 15 anos —, e foi ela quem teve que contar porque eu não conseguia, estava chorando muito.

A primeira reação dele foi lembrar que já existia um caso parecido na família. Aquilo me atingiu, pois foi quando a culpa mais me consumiu. Eu sentia que, se tivesse falado antes, talvez pudesse ter poupado minha prima mais nova. Ela tinha apenas três anos quando foi abusada por esse mesmo padrinho e, como a mãe dela já havia feito o boletim de ocorrência, unificamos os casos e entramos no processo juntas assim que a minha história veio à tona. Quando contei para o meu pai, eu já tinha decidido que queria levar para a Justiça. Se não fosse para isso, não faria sentido falar. Meu pai perguntou se eu tinha certeza, por ter medo da minha frustração e da exposição. Mas esse lugar nunca me assustou, eu não estava nem aí para o que os outros iam saber, porque é a verdade. Abri o processo consciente de que poderia ser só mais um papel. Eu queria fazer isso principalmente depois de saber da minha prima. Como eu já falava abertamente com amigos da escola sobre a situação, colocar para fora me fazia bem. Quanto mais eu expunha o assunto, mais provava para mim mesma que poderia lidar com o que aconteceu.

Esse segundo abuso foi o que deu mais validação ao processo. Como eu não tinha exposto antes, não tinha provas, seria apenas a minha palavra contra a dele. Sozinha, acho que realmente não teria dado em nada. Eu tive que fazer corpo de delito com 15 anos. O abuso aconteceu dos meus três aos sete anos. Já havia passado muito tempo desde que nada acontecia. Eu era virgem e tive que passar por um homem mexendo em mim de novo, num processo extremamente traumático. Entrar em uma sala com juiz, promotor, escrivão — um monte de homens — e ter que falar tudo o que aconteceu foi bem pesado. Mas era o protocolo deles.

Nos primeiros três ou quatro anos do processo, eu senti que era uma eternidade. Passou um ano e não tinha atualização, dois anos, nada. Fiz a minha parte e me confortei nisso. Depois de quatro anos, eu me conformei, principalmente depois que fui embora para a Irlanda. Pensei que eu fiz o que eu podia e parei de me nutrir de expectativas.

Eu me mudei com 19 anos para Dublin. Meu namorado veio com essa ideia, ele pesquisou tudo e eu só comprei a passagem. Fui para ficar oito meses e estou lá há cinco anos. Não tinha nada a ver com o processo, mas hoje vejo que me fez muito bem. Sair do Brasil abriu minha cabeça. Eu sabia lidar pouco com meus problemas, até por ser mais nova e vir de uma cidade muito pequena no Espírito Santo. Lá fora, eu ganhei uma maturidade diferente, porque não tinha a quem recorrer. Evitava contar problemas para minha mãe porque sabia que ela não podia me ajudar financeiramente ou emocionalmente naquele contexto.

Minha cabeça melhorou, comecei a entender que não precisava voltar para aquela vida antiga. Eu era muito presa à minha mãe, nunca tinha saído de casa, e de repente, tinha que me virar num país estrangeiro. No primeiro ano, tive crises de ansiedade e pânico que nunca tinha tido no Brasil. Foi um turbilhão. Com o tempo, aprendi a lidar. Eu me conheci muito, entendi do que gostava. Sempre me via como uma menina, não conseguia me ver como uma mulher. Hoje, aos 23 anos, minha cabeça virou. Entendi o meu lugar e o que passei.

A vitória na Justiça veio depois de nove anos de processo. Foi muito chocante chegar ao Brasil agora em 2026, depois de três anos e meio fora, e com três dias aqui receber a sentença por escrito. Parecia que era para ser. Ele ainda não está preso, mas foi sentenciado a sete anos de prisão, e ainda pode recorrer. Esse já é um lugar de conforto. Muita gente duvidou de mim;

Com certeza ficaram traumas. O que eu mais trato na terapia é a falta de conexão com a minha infância. Vejo fotos minhas quando criança e não consigo entender que sou eu ali. É algo muito estranho, parece que eu existo só dos 14 anos para frente. Minha cabeça apagou aquela fase e, talvez por isso, consigo falar sobre esse assunto de forma tão aberta.

Eu me envolvi com pouquíssimas pessoas na vida. Só fui ter relação sexual com meu namorado atual entre os meus 19 e 20 anos. Eu nunca gostei de homem me agarrando. Meu pai é bruto, gostava de brincar de lutinha, e isso me agonizava ao ponto de eu chorar e brigar com ele. Ele não entendia, achou por muitos anos que eu não gostava dele. Até um abraço simples me travava. Isso me machucava: o fato de não poder me movimentar, de não ter controle sobre o meu corpo. Me atrapalhou muito. Sempre que começava um relacionamento, eu colocava barreiras.

Tive um namorado aos 15 anos, o Murilo, que foi um anjo na minha vida. Ele foi o primeiro menino para quem tive coragem de contar sobre o abuso. Eu tinha medo de ser forçada a ter relações e expliquei tudo para ele. Fui muito respeitada. Ele me incentivou a contar para minha mãe e me ajudou a entender que eu não precisava fazer nada por obrigação, que as pessoas podiam me respeitar. Meu namorado atual sabe quem ele é e o carinho que tenho por ele.

Eu tento muito não me basear nos meus traumas e no que passei. O intuito que me levou a me abrir sobre essa história nas redes sociais foi só porque o processo deu certo. Infelizmente não é uma coisa muito corriqueira, sabemos que são raríssimos os casos que vão para frente.

Quero que outras pessoas que enfrentam a mesma situação entendam que pode dar certo. Eu precisava compartilhar isso para elas saberem que meu abusador não me destruiu. Eu não sou só o abuso sexual da qual fui julgado vítima.

Hoje, eu sei o tamanho que eu tenho. Ele tentou me deixar pequena, mas falhou. Eu sinto raiva às vezes, tenho minhas crises e choro, mas tenho uma vontade enorme de mostrar para o meu padrinho que não fui vencida. Eu sou muito maior do que tudo o que ele me fez passar.”

Para denunciar um crime de violência sexual, você pode procurar qualquer delegacia da Polícia Civil. As unidades especializadas, como as Delegacias de Atendimento à Mulher (DEAMs) ou de Defesa da Mulher (DDMs), são os locais mais indicados para esse tipo de acolhimento. Também é possível denunciar pelo Ligue 180, canal que direciona os relatos diretamente aos órgãos de Segurança Pública e ao Ministério Público de cada estado.

Fonte: Marie Claire


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