Estudo, publicado na Pediatrics, revela que o tipo de conteúdo é um fator importante para entender os sintomas crescentes de desatenção dos pequenos, mesmo aqueles que não têm TDAH
Ver uma criança com os olhos vidrados nas telas — seja no videogame ou celular — é uma cena muito comum por aí. Uma das principais preocupações com relação a esse comportamento é quanto ao aumento de desatenção entre os pequenos.
Redes sociais aumentam sintomas de desatenção entre as crianças — Foto: FreepikMas, será que todos os tipos de telas têm o mesmo impacto nas crianças? Um estudo, publicado pela Pediatrics, se propôs a investigar essa relação. E os resultados trouxeram um alerta importante.
O uso de redes sociais foi associado, ao longo do tempo, ao aumento de sintomas de desatenção — comportamento identificado em alguns casos de crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Por outro lado, não foi observado o mesmo padrão em atividades como jogar videogame ou assistir à televisão.
🔍 Como o estudo foi feito?
O trabalho incluiu 8.324 crianças, sendo 53% de meninos com idade média de 9,9 anos.
Tempo em cada tipo de tela:
📺 Televisão/ vídeos: 2,3 horas/ dia
📱 Redes sociais: 1,4 hora/ dia
🎮 Videogames: 1,5 hora/ dia
Para avaliar esses dados, os pesquisadores incluíram crianças do Estudo de Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente e os participantes foram acompanhados por quatro anos.
Principais resultados
Como já vem sendo discutido atualmente, o estudo reforçou que crianças com o uso acima da média de redes sociais apresentaram mais sintomas de desatenção em comparação aos outros participantes.
No entanto, o que o estudo traz de novo é que essa interação foi específica para redes sociais e não foi observado o mesmo padrão nos grupos dos participantes que assistiam à televisão/vídeos ou que jogavam videogame. Com esses dados em mãos, os pesquisadores trazem um alerta importante sobre o impacto das redes sociais nos diagnósticos de TDAH.
O transtorno é considerado multifatorial, pois envolve causas neurológicas, genéticas e ambientais. Trabalhos já mostram ainda que as mudanças na estrutura e funcionamento do córtex pré-frontal estão fortemente associadas aos casos de TDAH.
Neste novo estudo, também foi observado um aspecto interessante. Crianças com predisposição genética ao TDAH foram impactadas pelas redes sociais da mesma forma que crianças sem esse fator genético. Ou seja, o efeito prejudicial das redes sociais acontece com todas as crianças, independentemente da genética.
Redes sociais causam TDAH?
Ao olhar para esse estudo, muitas pessoas podem se confundir e achar que as redes sociais estariam causando o TDAH. Mas é preciso ter cautela com essa afirmação.
A psiquiatra Fabricia Signorelli Galeti, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), reforça que o TDAH é um transtorno poligênico (causado por múltiplas variantes genéticas). Tanto que já há estudos, baseados em evidências científicas, que associam certas variantes ao aumento de risco de TDAH.
Contudo, os pesquisadores também estão avaliando os impactos dos fatores ambientais no desenvolvimento do transtorno. Segundo a especialista, é possível entender esse cenário a partir da epigenética. "[Os fatores ambientais] funcionam como uma chave de liga e desliga. Assim, podem mudar a função do gene, que estava quietinho, mas acabou se expressando", explica a psiquiatra.
Para a especialista, como o estudo mostra que crianças de alto e baixo risco poligênico foram impactadas no aspecto atencional, é preciso olhar esses dados com atenção. "Será que estamos falando de algo epigeneticamente que pode ser um risco ou só é realmente uma mudança comportamental?", a médica questionou.
No entanto, apesar disso, a psiquiatra reforça que não podemos estabelecer uma relação causal direta afirmando que o uso de telas causa TDAH. Afinal, o diagnóstico do transtorno é fechado a partir de uma análise de vários sintomas e não por um fator único.
Diogo Haddad, neurologista do Alta Diagnósticos, marca Dasa, concorda que os dados devem ser interpretados com cuidado.
"O próprio efeito observado foi pequeno em nível individual, então, não é correto transformar esse achado em alarmismo. Ainda assim, quando falamos de milhões de crianças expostas, mesmo um efeito pequeno pode ter relevância em saúde pública. O mérito do trabalho é mostrar que talvez não sejam “todas as telas” iguais, o tipo de uso parece importar bastante", explica o especialista.
Em outras palavras, as redes sociais podem amplificar sintomas de desatenção ou contribuir para que eles se expressem mais claramente em algumas crianças. "Isso é diferente de dizer que a criança 'desenvolveu TDAH por causa da tela'. Na prática, as telas podem funcionar mais como fator de piora, de modulação ou de precipitação de sintomas em cérebros vulneráveis, e não como explicação única do transtorno", explica o médico.
"Se o videogame e a televisão são telas, por que teriam impactos menores que as redes sociais?". Essa pergunta pode ter passado pela cabeça de algumas famílias. Quanto a isso, Fabricia explica que é preciso entender que, nesse caso, dois tipos de atenção estão sendo avaliados.
Atenção mais sustentada (jogos de videogame): para que o adolescente entenda a dinâmica e estratégia do jogo, ele precisa estar mais focado.
Atenção fragmentada (redes sociais): as notificações constantes, vídeos curtos, rolagem infinita favorecem a interrupção da atenção com mais frequência.
Por que é importante entender isso? Para o neurologista Diogo Haddad, o ponto central desse estudo é mostrar que não basta medir o tempo de tela de forma genérica, é preciso avaliar também o conteúdo.
Redes sociais pioram os sintomas de TDAH?
Sim! Afinal, uma criança com o transtorno já tem dificuldade de regular a atenção por uma alteração em seu sistema cerebral. "Quando ela passa horas nas redes sociais, está em um ambiente que vai exatamente na direção contrária do que ela precisaria. Em vez de treinar o foco, fica sendo bombardeada por estímulos rápidos que reforçam o padrão de distração, piorando os sintomas", menciona a pediatra Loretta Campos.
O uso constante das mídias sociais pode aumentar os diagnósticos?
O termo TDAH se popularizou muito nos últimos anos. Situações de falta de atenção frequentemente vêm sendo associadas ao transtorno. Quem nunca se deparou com o famoso vídeo de uma pessoa indo à geladeira e se esquecendo o que ia pegar? E as telas têm sido as principais "vilãs" nesse cenário.
De fato, o estudo indica que o uso constante das mídias sociais pode impactar os diagnósticos. "O artigo propõe que, se houver um deslocamento pequeno, porém consistente, da média populacional de sintomas de desatenção, mais crianças podem ultrapassar limiares clínicos e acabar entrando em avaliação diagnóstica!", explica o médico.
Em seu consultório, a pediatra Loretta Campos já vem percebendo o aumento do número de crianças com sinais preocupantes de desatenção, mas ao fazer a avaliação, não têm TDAH.
"O problema é que os sintomas são parecidos: não consegue focar, não termina o que começa, se distrai à toa. Então, a gente precisa investigar muito bem antes de fechar um diagnóstico. A história de telas precisa entrar obrigatoriamente nessa conversa, porque confundir os dois pode levar a um diagnóstico errado e isso tem consequências sérias para a criança e para a família."
Quais são as limitações do estudo?
O psiquiatra Oswaldo Petermann Neto, da Doctoralia, concorda com os outros especialistas sobre a importância do estudo para entender que o problema não é só a tela, mas o tipo de interação digital.
"Ele ajuda a sair de uma visão simplista e mostra que as redes sociais podem ser um fator de risco leve, mas real. Esse efeito é independente da genética e é um fator modificável", afirma o médico.
No entanto, não se pode desconsiderar, segundo ele, que o trabalho também tem algumas limitações:
- Uso de mídia foi autorrelatado;
- Não há prova definitiva de causalidade;
- O efeito encontrado é pequeno;
- Não diferencia profundamente tipos de conteúdo dentro das redes.
"Além disso, ainda precisamos entender melhor: quais crianças são mais vulneráveis, qual o papel do tempo vs. tipo de uso", destacou o especialista.
Como saber se meu filho tem TDAH?
Segundo Fabricia Signorelli Galeti, para fechar o diagnóstico de TDAH, os profissionais de saúde consideram três fatores principais:
- Os sintomas precisam estar presentes nos últimos seis meses
- Os sinais causam prejuízo funcional, isto é, prejudicam a vida das crianças
- As manifestações clínicas se apresentam em diferentes ambientes, não só na escola, onde há mais demanda, mas também em casa, no clube, na aula de karatê, natação (…)
Quais são os principais sintomas de TDAH?
O TDAH é caracterizado por 18 sintomas, organizados em dois grupos principais:
- 9 relacionados à desatenção: nesse caso, a criança costuma mostrar dificuldade de manter o foco, se distrai com facilidade, reluta em fazer atividades que demandam um esforço mental maior e tem episódios de esquecimento.
- 9 relacionados à hiperatividade: os pequenos tendem a ficar mais agitados; correm, pulam com frequência; têm dificuldade de esperar a sua vez para falar e ainda se colocam em situações de risco.
Há ainda a possibilidade de o paciente apresentar os sintomas dos dois grupos: “Para o diagnóstico, não existe a necessidade de que a criança tenha os 18 sintomas. Em crianças e adolescentes, são necessários seis, enquanto na vida adulta, pelo menos cinco”, explica a médica.
Tratamento do TDAH
Em alguns casos, as famílias podem seguir com as terapias comportamentais, enquanto em outros, o melhor caminho é iniciar a intervenção com a medicação.
Os medicamentos para o TDAH se dividem em dois grupos principais:
- Estimulantes: medicações como o metilfenidato e a anfetamina.
- Não estimulantes: atomoxetina
Os estimulantes atuam em várias vias cerebrais, algumas responsáveis por ativar a capacidade das pessoas de filtrar os estímulos externos e internos, mas também possuem alguns efeitos, colaterais como falta de apetite e insônia.
Diferentemente dos medicamentos estimulantes, os não estimulantes demoram um pouco mais para fazer efeito — de 3 a 4 semanas. Em geral, podem ser indicados para pessoas que tiveram muitos efeitos colaterais ao tomar os medicamentos estimulantes.
Fonte: Revista Crescer


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