Inscrições, esculturas e vestígios de oficinas ajudam a revelar as crenças e a rotina de uma comunidade que vivia nos limites do Império Romano, na atual Alemanha
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Os pesquisadores descobriram o templo na extremidade da área de escavação atual — Foto: Lars Görze MA, LfDH
Arqueólogos descobriram os restos de um templo dedicado a Marte, deus romano da guerra, sob o solo de uma floresta nas montanhas Taunus, no estado de Hesse, na Alemanha. A construção fazia parte de um povoado associado ao forte militar de Kapersburg, ocupado por soldados romanos por cerca de 150 anos.
Escavações são realizadas no local desde 2024, conduzidas pelo Departamento de Arqueologia de Hesse, em parceria com a Universidade de Frankfurt. Em comunicado divulgado em 25 de setembro, o órgão oficial destacou que os vestígios ampliam o conhecimento sobre a organização da vida nas fronteiras do Império Romano.
O templo tem formato retangular e mede aproximadamente cinco metros de comprimento. No seu interior, os pesquisadores identificaram uma câmara menor, com paredes de cerca de 50 centímetros de espessura. A estrutura pode ter sido um templo ambulatório: um tipo de construção religiosa em que a sala central de culto era cercada por uma passagem coberta.
Esculturas revelam a devoção dos moradores
Dentre as evidências que permitiram identificar a divindade, estão fragmentos de inscrições em pedras dedicatórias, conhecidas como pedras votivas. Esses objetos eram oferecidos aos deuses para agradecer por uma conquista ou pedir proteção e auxílio. Parte das inscrições já foi traduzida, e especialistas continuam examinando o material para obter mais informações sobre o local.
A equipe também encontrou fragmentos de uma escultura que pode representar Marte, entre eles uma peça semelhante à mão de uma figura divina. Outro achado é uma estatueta quebrada da deusa Vitória, cuja identificação foi possível graças a características como asas, um ramo de palmeira e uma coroa de louros. A figura simbolizava o triunfo e era associada às conquistas militares romanas.
Katharina Grießhaber, pesquisadora que participou dos trabalhos de campo, explicou que a relação dos romanos com as divindades envolvia uma espécie de troca: os fiéis faziam oferendas em busca de proteção ou favores. “Vitória, se você me apoiar, eu lhe darei um presente”, afirmou, ao descrever essa lógica ao portal Hessenschau.
A tradução completa das inscrições poderá esclarecer outros aspectos da história do povoado. Uma das possibilidades é que o texto revele o nome antigo da comunidade, ainda desconhecido pelos pesquisadores.
Solo preservou estruturas antigas
A conservação dos vestígios é um dos aspectos mais importantes da descoberta. Como a área permaneceu coberta por floresta e não foi submetida à agricultura intensiva, estruturas e objetos sobreviveram a poucos centímetros da superfície.
Objetos escavados no sítio arqueológico — Foto: Lars Görze MA, LfDH“Precisamente porque nunca houve agricultura nesta região, a floresta preservou tudo ao longo dos últimos séculos”, afirma Mückenberger. Segundo o arqueólogo, o solo guarda camadas de ocupação que, em áreas cultivadas, poderiam ter sido destruídas por séculos de atividade agrícola.
Essa área começou a chamar a atenção dos especialistas depois que uma tempestade danificou parte da floresta e deixou à mostra pedras dispostas de maneira aparentemente deliberada. A partir desses indícios, os arqueólogos passaram a investigar o terreno e identificaram estruturas do assentamento romano.
Povoado reunia artesãos e famílias de soldados
O templo fazia parte do vicus – termo latino usado para designar um povoado ligado a uma instalação militar romana. Essas comunidades geralmente abrigavam comerciantes, artesãos, familiares dos soldados e outros civis que forneciam produtos e serviços às tropas.
O forte de Kapersburg provavelmente foi construído no século II, durante o governo dos imperadores Trajano (98–117 d.C.) ou Adriano (117–138 d.C.). Uma unidade auxiliar chamada Numerus Nidensium permaneceu ali por aproximadamente 150 anos. Seus integrantes eram originários de Nida, cidade romana situada na região onde hoje fica o bairro de Heddernheim, em Frankfurt.
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Esta ânfora era usada pelos romanos para armazenar alimentos ou líquidos antes de ser colocada na fundação de um edifício — Foto: Lars Görze MA, LfDH
Segundo a revista Smithsonian, estima-se que cerca de 160 soldados estivessem estacionados no forte e que até 700 pessoas vivessem no povoado vizinho. O complexo integrava o Limes Germânico-Rético Superior, sistema de fortificações que demarcava parte da fronteira do Império Romano entre os rios Reno e Danúbio. A região foi reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em 2005.
As escavações recentes também revelaram estruturas relacionadas ao trabalho artesanal, como fossos de ferreiros e fornos que podem ter sido utilizados para secar grãos ou assar pão. A equipe encontrou menos vestígios de moradias do que esperava, mas identificou mais evidências de produção e serviços. Os resultados sugerem que a área investigada talvez funcionasse como uma zona de trabalho entre o forte e outras partes do povoado, destaca a Live Science.
Vestígios indicam ocupação após a saída dos romanos
O forte foi abandonado em meados do século 3, por volta de 275 d.C., durante o processo conhecido como Queda do Limes, que marcou o recuo romano dessa fronteira. A área, porém, pode ter continuado a ser utilizada depois da saída dos militares.
Perto do templo, os pesquisadores encontraram uma fíbula datada da Antiguidade Tardia, período que se seguiu à Antiguidade romana. O objeto pode indicar uma ocupação posterior, possivelmente relacionada aos alamanos, povos germânicos que se estabeleceram na região. A hipótese ainda precisa ser confirmada por novas evidências, de acordo com o Departamento de Arqueologia de Hesse.
Outros vestígios ajudam a reconstruir as mudanças ocorridas no assentamento antes de seu abandono. Camadas de nivelamento indicam que os romanos modificaram o terreno e reorganizaram partes do povoado, substituindo algumas áreas por edifícios residenciais. Resquícios de estradas e terraços também permitem estimar melhor a disposição das construções.
Com informações da Revista Galileu

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