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Infertilidade secundária: especialistas explicam causas e tratamentos

Saiba sobre o processo de pessoas que já tem filho mas não estão conseguindo engravidar novamente


A primeira gestação ocorreu na maior tranquilidade e tudo levava a crer que o segundo filho também viria sem problemas, mas não foi o que aconteceu. Menos comum que a infertilidade primária -- aquela que acomete casais sem filhos -- a infertilidade secundária também gera incertezas e frustrações. “Quando um casal já teve filhos, um ou mais, mantém vida sexual regular, com pelo menos duas relações por semana sem uso de contraceptivo, e não consegue engravidar depois de um ano, temos um provável caso de infertilidade secundária”, explica Paulo Gallo, especialista em reprodução humana assistida e diretor-médico do Vida - Centro de Fertilidade, no Rio de Janeiro.

“A infertilidade secundária tem sido uma queixa frequente nos consultórios médicos, já que os casais têm filhos cada vez mais tarde”, diz Polyanna Pereira de Azevedo, ginecologista da Clínica Leger, no Rio de Janeiro. Segundo ela, no Brasil, a infertilidade gira em torno de 12,6% das mulheres entre 25 e 49 anos e essa porcentagem vai ser se tornando cada vez maior, conforme aumenta a idade da mulher, podendo atingir até 20%. “Contando que a mulher engravida cada vez mais tarde, numa segunda ou terceira gestação, ela estaria por volta dos 36, 40 anos, faixa etária em que, naturalmente, a chance de gestação seria menor”, afirma Maurício Chehin, especialista em reprodução humana e coordenador da Oncofertilidade da Clinica Mantelli, em São Paulo.

Existem outras causas relacionadas à idade, como a baixa reserva ovariana. As mulheres nascem com uma quantidade fixa de óvulos, que vão sendo gastos ao longo da vida, portanto, numa segunda, terceira gravidez, é comum que elas tenham menos óvulos disponíveis. “Doenças que interferem diretamente na fertilidade, como a endometriose e a miomatose uterina (miomas no útero) também são tempo-dependentes, quanto mais anos de vida e de exposição hormonal, mais elas avançam”, acrescenta Maurício Chehin. O estilo de vida da mulher também deve ser levado em consideração. “Tabagismo, obesidade e exposição a medicações podem levar à infertilidade”, diz Polyanna de Azevedo. Destaque ainda para as alterações hormonais. “Diabetes, síndrome dos ovários micropolicisticos e alterações tireoidianas têm impacto direto na ovulação”, afirma Fernanda Pepicelli, ginecologista e obstetra de São Paulo.

Assim como no caso das mulheres, idade e estilo de vida impactam a fertilidade masculina. Segundo Fernanda Pepicelli, os homens são responsáveis por aproximadamente 40% dos casos de infertilidade do casal. Apesar de eles produzirem espermatozoides a vida inteira, há uma diminuição na qualidade com o passar dos anos. “Além da idade, estilo de vida, obesidade, tabagismo, uso de bebida alcoólica e de medicações influenciam na qualidade dos espermatozoides”, diz Domingos Mantelli, ginecologista e obstetra da Clinica Mantelli, que acrescenta: “Com o passar dos anos, aumenta o risco de varicocele, doença que dificulta a produção de um sêmen de qualidade, pois as varizes aumentam a temperatura na bolsa escrotal, desnaturando os espermatozoides”.

Depois de um ano de tentativas frustradas, a investigação médica é indicada. Se a mulher tem mais de 35 anos, esse período é mais curto, de seis meses, a fim de haver mais tempo para o tratamento. “O diagnóstico segue o mesmo protocolo dos casos de infertilidade primária, investigando os principais fatores femininos e masculinos”, explica Paulo Gallo. De acordo com o médico, o fator masculino é investigado através do espermograma, que mede a quantidade e qualidade dos espermatozoides. Nas mulheres, existem exames específicos para diferentes fatores: tubário, através da histerosalpingografia, uma espécie de Raio X; uterino, através de ultrassonografia e de videohisteroscopia; e fator ovulatório, através das dosagens hormonais para detectar se existe alguma disfunção que esteja atrapalhando a ovulação.

O tratamento vai depender da causa da infertilidade. “Às vezes, é suficiente o uso de medicação para uma correção hormonal. Em outros casos, pode ser necessário realização de cirurgia para correção da causa base”, fala Polyanna de Azevedo. Em alguns casos, a Fertilização In Vitro (FIV) é a mais indicada -- essa técnica de reprodução assistida serve tanto para o fator masculino como para o feminino “Quando, por exemplo, as trompas são obstruídas e o espermatozoide não tem qualidade”, diz Paulo Gallo. E, como a chance de sucesso é maior, a FIV é bastante indicada para casais mais velhos. No procedimento, é recolhido o óvulo da mulher e o espermatozoide do homem e a fecundação é realizada em laboratório, gerando um embrião, que é transferindo para o útero. “A fertilização in vitro foi um avanço muito importante, mas temos que deixar claro que ela não resolve todos os problemas. Uma paciente com endometriose que faça a FIV sem curar 100% a doença, corre o risco não só da fertilização não dar certo como o de perder o bebê, o que causaria um trauma ainda maior”, alerta Domingos Mantelli.

Ainda que a infertilidade secundária traga menos stress do que a primária, porque o casal já conseguiu ter filhos, o acompanhamento psicológico é importante. “Até mesmo para descartar a influência das causas emocionais”, fala Domingos Mantelli. A frustração é uma constante. “A ansiedade por ter outro bebê juntamente com a tristeza de não conseguir faz com que a mulher, principalmente, se sinta culpada e frustrada”, diz Polyanna de Azevedo. E o fator financeiro também gera preocupação: “A maioria dos tratamentos ainda tem um custo elevado e dificilmente estão disponíveis na rede pública”, conclui a médica.



Revista Vogue

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