Conheça o truque de marketing que vai pôr insetos no seu prato

Foto: Adriana Cantalejo Simões/Flickr

Uma pesquisa inovadora da Embrapa Agroindústria de Alimentos demonstra que a combinação certa de informações pode transformar a resistência em interesse quando o assunto são alimentos à base de insetos.

A maioria dos produtos à base de insetos (cerca de 51%) no mercado global são, predominantemente, snacks como, por exemplo, biscoitos. Na foto, biscoito à base de farinha de inseto. Foto: Kadijah Suleiman/Embrapa

O estudo, publicado no Journal of Sensory Studies, identificou fatores-chave que reduzem a neofobia alimentar, que é o medo de experimentar alimentos desconhecidos, E impulsionam a intenção de compra desses produtos sustentáveis.

Segundo relatório da OCDE e FAO, o consumo atual de carne preocupa órgãos governamentais devido ao impacto ambiental e à degradação do planeta. Diante desse cenário, fontes alternativas de proteína, como insetos, surgem como solução sustentável para substituir fontes convencionais de carne.

“A escolha por biscoitos levou em consideração que esse tipo de alimento é familiar no Brasil e diversos autores relatam a familiaridade como fator que impulsiona não apenas a aceitação, mas também a disposição para experimentar produtos à base de insetos”, explica a pesquisadora Rosires Deliza, da Embrapa.

Biscoitos de insetos: porta de entrada para o mercado brasileiro

A pesquisa realizou dois estudos, incluindo degustação de biscoitos feitos com farinha de insetos em supermercado carioca. A escolha não foi aleatória: dados do IBGE mostram que o brasileiro consome diariamente 3,7 gramas de biscoitos doces e 6,8 gramas de salgados per capita. Globalmente, 51% dos produtos à base de insetos são snacks, categoria que apresenta maior potencial de mercado.

Pesquisadora Rosires Deliza no Laboratório de Análise Sensorial da Embrapa Agroindústria de Alimentos. Foto: Kadijah Suleiman/Embrapa

O primeiro estudo comprovou que mensagens com estímulos combinadas a imagens do produto aumentam significativamente a intenção de compra. “Esse enquadramento fornece não apenas conteúdo informativo, mas também segurança visual, ajudando consumidores a formar percepções mais positivas”, destaca a pesquisa.

O segundo estudo foi além: investigou se benefícios hedônicos (prazer sensorial) ou de saúde reduziriam o impacto da neofobia. Os resultados foram claros.

“Consumidores expostos às informações relacionadas à saúde não apenas demonstraram maior intenção de comprar os biscoitos, mas também os notaram como mais sustentáveis”, revela Karen Romano, doutoranda da UFRRJ e coautora do estudo.
Segurança e controle: insetos criados para consumo humano

Rosires Deliza esclarece que os insetos são criados especificamente para alimentação, de forma higiênica e com rigoroso controle microbiológico, sem expor consumidores a riscos. As informações da pesquisa podem subsidiar o Ministério da Agricultura na elaboração de legislação sobre consumo de alimentos à base de insetos no Brasil.

Teste sensorial realizado em supermercado no Rio de Janeiro. Foto: Ivan Alcântara/Embrapa

A pesquisa oferece insights valiosos para diferentes setores:

Marketing e desenvolvimento de produtos: destacar benefícios à saúde aumenta a intenção de compra, sugerindo equilíbrio nas mensagens para atrair público amplo, especialmente consumidores preocupados com saúde. Campanhas educativas e degustações facilitam a familiarização. Enfatizar benefícios ambientais nas embalagens atrai consumidores ecologicamente conscientes.

Políticas públicas: órgãos reguladores podem apoiar a produção com diretrizes confiáveis para processamento, rotulagem e marketing, aumentando a confiança do consumidor. Incentivos para pesquisa e desenvolvimento podem impulsionar inovação, tornando esses alimentos mais atraentes e acessíveis.

Futuro sustentável da alimentação

Os estudos sugerem que superar a resistência inicial por meio de estratégias de marketing direcionadas, educação e apoio político pode ampliar significativamente a aceitação de alimentos à base de insetos. Com o crescimento populacional global e a urgência da sustentabilidade, esses produtos representam solução viável para segurança alimentar e desafios ambientais – desde que percepções e preferências dos consumidores sejam adequadamente gerenciadas.

O artigo “Sustainable Bites: can health goal framing and perceived sustainability reduce the impact of food neophobia on the intention to purchase insect-based products?” está disponível no Journal of Sensory Studies.

Fonte: Agro em Campo


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