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Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa |
A coleta e comercialização de tucumã e outras espécies nativas fortalecem a autonomia feminina e combatem a violência doméstica na Ilha de Cotijuba, em Belém. Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Ciências Sociais mostra como o extrativismo se transformou em ferramenta de empoderamento e resistência territorial para as mulheres paraenses.
A Embrapa Amazônia Oriental coordenou o estudo entre 2022 e 2023 e concluiu que as práticas extrativistas ultrapassam a geração de renda. O trabalho redefine o papel social das mulheres na região, oferece proteção contra agressões domésticas e promove protagonismo político em uma área que enfrenta forte pressão imobiliária e crescimento turístico.
Movimento feminino cria rede de acolhimento e proteção
O estudo analisou a atuação do Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB) e identificou como o grupo oferece refúgio e condições de liderança para suas integrantes. A pesquisadora Dalva Mota destaca que a autonomia pessoal e política das extrativistas representa o impacto mais significativo do trabalho.
“Em um contexto que apresenta desigualdades de gênero e violência doméstica, o MMIB atua como rede de acolhimento”, explica Mota. Relatos coletados pela pesquisa mostram que a participação no movimento permitiu que muitas mulheres rompessem ciclos de submissão. Uma das entrevistadas descreve o MMIB como um “refúgio” contra crises conjugais e a imposição exclusiva do trabalho doméstico.
Mulheres lideram decisões e estrutura organizacional
A coordenação do movimento conta exclusivamente com mulheres, que garantem autonomia na tomada de decisões. Homens associados têm direito apenas ao voto, sem acesso a cargos de direção. Essa estrutura fortalece a autoestima e promove qualificação profissional de mulheres que, em sua maioria, vivenciaram trabalho doméstico precoce e migraram em busca de melhores oportunidades.
Uma multinacional brasileira de cosméticos estabeleceu parceria comercial com o grupo em 2002 para fornecimento de priprioca (planta aromática amazônica). O acordo se estendeu posteriormente ao tucumã (fruto de palmeira amazônica), inserindo as mulheres em uma “bioeconomia inclusiva” repleta de desafios.
As extrativistas traduzem seus valores locais para a lógica capitalista de preços e metas, enquanto desafiam a demanda industrial por escala de produção. Segundo as pesquisadoras Ana Felicien e Dalva Maria da Mota, a experiência do MMIB prova que a bioeconomia na Amazônia envolve relações sociais complexas e a manutenção da floresta preservada.
Tucumã resiste a mudanças climáticas e protege território
O tucumã (Astrocaryum vulgare Mart.) surge como símbolo de resistência ecológica na região. Enquanto o açaí, principal cultura local,sofreu com secas recentes, o tucumã demonstrou resiliência ao fogo e às alterações climáticas, garantindo alternativa econômica viável para as famílias.
A atividade ajuda a preservar a paisagem da ilha, hoje fragmentada pelo desmatamento e pela especulação imobiliária que expulsa famílias de seus quintais produtivos. A Ilha de Cotijuba possui praias tranquilas de água doce e atrai interesse turístico crescente.
“Para as mulheres de Cotijuba, o extrativismo representa uma forma de ‘segurar a terra’. E garantir que, mesmo em meio a pressões urbanas, suas vidas e saberes continuem a florescer”, afirmam as pesquisadoras.
A pesquisa demonstra que a coleta de frutos nativos na Amazônia combina desenvolvimento econômico, preservação ambiental e transformação social, oferecendo modelo replicável para outras comunidades tradicionais.
Fonte: Agro em Campo


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